7 de dez. de 2008

1 sem-teto = 350 REAIS (por mês)

ASSISTÊNCIA
Quase um salário mínimo. É quanto cada morador de rua custa para a prefeitura

De 2005 para cá, o número de sem-teto que perambulam pelas ruas da cidade cresceu 30%. De acordo com estimativa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, eles são 13 000. Gente como o catarinense José Carlos Inocêncio, que, quando deixou sua terra natal para estabelecer-se em São Paulo, ficou mais de um ano sem endereço. "Preferia dormir em bairros finos, como Higienópolis, onde a violência é menor", conta. Há dois meses, ele ocupa uma das 150 vagas do albergue Samaritanos, administrado pela Associação Reciclázaro, no Pari. Assim como ele, cerca de 8 000 pessoas passam as noites em um dos 36 albergues da cidade, entidades que sobrevivem com verbas repassadas pela prefeitura. O aparato assistencial paulistano ainda conta com moradias provisórias (onde o hóspede contribui financeiramente), núcleos de serviços (que oferecem palestras, cursos de capacitação e oficinas) e 354 agentes de proteção social, entre outros. "Por mês, destinamos 4,5 milhões de reais para os cuidados com esses cidadãos", afirma o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro. Ou seja: são 350 reais para cada sem-teto. Quase um salário mínimo (380 reais).

Os repasses às entidades variam caso a caso. São definidos de acordo com os serviços oferecidos e, como quase tudo na esfera pública, mediante licitação. Em média, cada vaga de albergue custa 250 reais por mês aos cofres municipais. Mas há instituições que ganham muito mais (veja quadro). No topo do ranking está o Lar Transitório Batuíra, na Bela Vista. Mantenedor do espaço, o Grupo Espírita Batuíra recebe da prefeitura 13 340 reais por mês para disponibilizar as dez vagas da casa, que nem parece um albergue, diga-se. No portão, há um interfone e uma câmera de segurança. O visual, limpo, lembra uma clínica médica particular, com paredes e pisos brancos. Na recepção, há um computador com monitor de tela plana, cadeiras estofadas e um funcionário solícito. "Nosso trabalho é diferenciado", comenta a assistente social Rosa Zulli de Araujo, coordenadora do abrigo. "Recebemos os moradores de rua convalescentes, que foram hospitalizados, passaram por cirurgia e não têm nenhum familiar para cuidar de sua recuperação." Para dar conta de uma estrutura dessas, a entidade dispõe de onze funcionários e um esquadrão de 36 voluntários, como médicos, psicólogos e fisioterapeutas. "Aqui é maravilhoso: temos médico todo dia e boa comida", diz Vicente Martins da Silva, que, após ter um pé amputado, vive ali há três semanas.

Com orçamentos acima da média também estão os três albergues classificados pela prefeitura como "abrigo especial para mulheres". São lugares que acolhem mulheres de rua, muitas com filhos a tiracolo. "Aqui elas passam o dia inteiro. Não só pernoitam, como em albergues comuns", explica a pedagoga Edwiges Romani Chaves, coordenadora da Casa de Marta e Maria. "Na maioria dos casos, as pessoas que chegam ao nosso abrigo são vítimas de violência e estão debilitadas." A alimentação é reforçada, sobretudo por causa das crianças – são seis refeições por dia. Mensalmente, a prefeitura repassa 40 449 reais para que o albergue, de setenta vagas, seja mantido. Com orçamento proporcionalmente parecido (115 185 reais para 250 vagas), o Vivenda da Cidadania, no Pari, é o único albergue nos moldes tradicionais que figura entre os cinco mais caros da cidade. A justificativa está na ponta da língua da coordenadora, a assistente social Márcia Martins Miranda: "Como temos enfermaria, mais da metade dos que nos são trazidos tem algum problema de saúde". Para manter toda a estrutura, o Vivenda conta com 51 funcionários. O secretário Floriano Pesaro não acredita que haja abusos nos valores pagos às entidades. "O repasse se diferencia porque há peculiaridades em cada licitação", diz ele. "Além de os serviços oferecidos variarem, há entidades que ocupam imóveis alugados, outras que estão em prédios próprios e até as que se instalaram em espaços públicos cedidos pela prefeitura."


Os cinco albergues MAIS CAROS da capital*
*valores mensais, por vaga, pagos pela prefeitura

Lar Transitório Batuíra
R$ 1 334,06

Abrigo Maria da Penha
R$ 880,07

Casa da Mamãe
R$ 668,23

Casa de Marta e Maria
R$ 577,85

Vivenda da Cidadania
R$ 460,74


Quarta-feira, 19 de setembro de 2007

6 de dez. de 2008

Em quem o frio dói mais

CIDADE
Apenas um em cada quatro moradores de rua aceita ir para albergues

Faltam dentes na boca de Edmilson, que mora na rua desde o ano passado. Suas roupas, sujas, exalam mau cheiro. Ele diz que não toma banho há duas semanas, não comeu nas últimas 24 horas e está visivelmente alcoolizado. "Não quero, já estou acostumado a dormir na rua", é o que responde a um dos 354 agentes de proteção social da cidade, sem dar seu nome completo, ao ser convidado a passar a noite em um albergue municipal. "A cada quatro pessoas abordadas, só uma aceita ir", afirma a assistente social Grasiella Fernandes Basso, uma das coordenadoras da Central de Atendimento Permanente (Cape), da prefeitura. "Não podemos forçar ninguém." Eram 22 horas de terça-feira (31) e fazia um frio de 16 graus no Pátio do Colégio. Temperatura bem mais amena que a da véspera, quando os termômetros chegaram a registrar 6,8 graus na mesma região. Com essa "ajudinha", os agentes conseguiram levar um número recorde de sem-teto aos 35 albergues da cidade. Foram 708 encaminhamentos – a média diária é de 200. "O frio é o melhor argumento para convencê-los", diz a agente Iara Renata Garcia, com a experiência de três anos na profissão.

Edmilson é um dos 12 000 moradores de rua da cidade, segundo estimativa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Desde 1998, a prefeitura mantém um serviço de atendimento a essas pessoas. Ampliado em 2005, ganhou sede na Avenida Tiradentes, onde funciona uma espécie de QG do sistema. Seis funcionários trabalham numa versão reduzida de uma central de telemarketing. Por dia, cerca de oitenta paulistanos ligam para o Cape informando que há um grupo de moradores de rua em determinado endereço e pedindo a intervenção dos agentes. "Geralmente, o tom é de reclamação", conta Grasiella. "Ligam incomodados com os sem-teto." O pedido é encaminhado a uma equipe (um motorista e dois agentes), que parte para o local em uma das 44 peruas da Cape. Paralelamente a esse trabalho, elas também rondam pela cidade em busca de moradores de rua. "Nós os abordamos numa boa, procuramos ganhar a confiança deles e mostrar que no albergue há proteção, comida e banho", conta Iara. Na terça, Edmilson não foi convencido. Mas Amaury Ambrósio e Marco Antonio Prates toparam. "Estou há um mês na rua", dizia Prates, que durante o dia faz bicos nas lojas de eletrônicos da Santa Ifigênia. No albergue Cirineu, na Rua Santo Amaro, tomaram banho e receberam um lanche (pão com manteiga e leite quente com achocolatado). Poderão ficar ali até seis meses. Ao fim desse período, se não conseguirem endereço fixo, podem ter sua estada prorrogada. "Tirar a pessoa da situação de rua é um trabalho de médio prazo", afirma Floriano Pesaro, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social. "Metade de nossos albergues oferece cursos de qualificação profissional."


Sem endereço fixo

• 12 000 paulistanos vivem nas ruas
• 354 agentes tentam diariamente encaminhá-los aos 35 albergues da cidade – são cerca de 8 000 vagas
• Cada agente ganha de 525 a 694 reais por mês
• Dos albergados, 66% têm entre 30 e 55 anos
• Os telefones da Cape são 3228-5554/2092



Quarta-feira, 8 de agosto de 2007

5 de dez. de 2008

Quer ver coisa diferente? Vá ao museu

CULTURA
Masp? Ipiranga? Que nada. SP tem outros acervos tão curiosos que chegam a surpreender os freqüentadores

“Tudo o que é falado me interessa.” Eis o lema que o jornalista Luiz Ernesto Kawall segue obsessivamente há mais de 40 anos. Acabou criando um museu cujo acervo são vozes - de 3 mil donos diferentes. Tem para todos os gostos: discursos de Adolf Hitler, Carlos Lacerda e Lênin; narrações futebolísticas de Geraldo José de Almeida; depoimentos de Thomas Edison, Ernesto Che Guevara e Sigmund Freud; e até uma entrevista concedida, jura Kawall, pelo cangaceiro Lampião em 1991, durante uma sessão em um centro de umbanda.

Assim como o jornalista, outros paulistanos transformaram em museu seu tema predileto. É o caso do mágico Basilio Artero Sanchez, conhecido como Mister Basart. Fascinado por números ilusionistas, ele começou a se corresponder com mágicos do mundo nos anos 1970. Em 1982, decidiu exibir todo o material que reuniu. Hoje, há mais de 60 mil itens no acervo do Museu da Mágica - reportagens, documentos, cartazes e aparelhos. E quem o visita ainda assiste a alguns números apresentados pelo próprio Basart. “Meu museu é pequeno, mas quem vem pode conferir ao vivo o que está na parede, pois eu acompanho cada visitante”, diz ele.

Inaugurado há um ano e meio, o Museu da Matemática era sonho antigo do físico aeroespacial Aguinaldo Pradini Ricieri, pesquisador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). “Com ele, mostro que a matemática existe para ajudar a resolver problemas”, apregoa. Quem se aventura a conhecer mais a fundo esse mundo que a muitos traz lembranças desagradáveis dos tempos de escola, encontra peças como círculos trigonométricos e ciclóides metálicos, em meio a quadros e bancos (ao estilo desses de praças) que homenageiam célebres matemáticos da história. Nos fins de semana, o espaço oferece palestras gratuitas.

Já a idéia do técnico em informática José Carlos Valle vingou por apenas dois anos. Ele reuniu quinquilharias tecnológicas - entre elas, um mouse de madeira de 1964 e um disco rígido de 20 quilos - e criou, em 2005, o Museu do Computador. Acabou precisando fechá-lo por dificuldades de manutenção. “Mas quero reabri-lo logo”, avisa. “Preciso apenas de uma equipe para me ajudar com esse projeto.” Por enquanto, os cerca de 15 mil itens de seu memorial ficam guardados. Parte em três galpões de amigos, parte em casa. A quem se interessar, Valle se dispõe a levar alguns em apresentações em escolas, universidades, feiras de ciências e outros eventos.

Tais exemplos provam que nem todo museu precisa ter quadros nas paredes ou cultivar aquele silêncio contemplativo em seu interior. Entre os cerca de cem que existem na capital paulista, alguns se destacam justamente pela excentricidade do acervo. É possível encontrar palitos de dente com sabor (no Museu das Invenções), bustos de bandidos famosos (Museu do Crime), um bimotor DC-3 usado na 2ª Guerra Mundial (Museu da Tecnologia) e roupas, gravatas, sapatos e luvas (Modateca).

NEGÓCIO PRÓPRIO
Também há os que montam museus exibindo peças antigas que se relacionam à empresa que tocam. A iniciativa é bacana por muitas razões. Além do valor cultural, o empresário ainda acaba atraindo os holofotes para seu negócio e, de quebra, arrebanhando novos clientes. “Muitas pessoas vêm ao museu e acabam se interessando pela loja”, admite a jornalista Ivani Migliaccio, responsável desde 1997 pelo Museu dos Óculos, que funciona no mesmo casarão que abriga uma das unidades da ótica Miguel Giannini Óculos. As peças começaram a ser colecionadas por Giannini aos 13 anos - hoje ele tem 66.

O museu foi aberto em 1996 com pouco mais de 50 itens. Atualmente, há 700. “Originalmente, não era uma ferramenta de marketing”, diz Ivani. “Foi algo que nasceu do gosto pessoal do proprietário da empresa.” Exemplo semelhante é o Museu do Relógio, fruto da paixão do empresário Dimas de Melo Pimenta. Relógio é um dos diversos itens fabricados por sua empresa, a Dimep. O memorial foi criado em 1975, com sua coleção particular.

Como bom italiano (radicado no Brasil desde 1976), o empresário Enrico Vezzani é um aficionado por macarrão. Juntou balanças antigas, fogão à lenha e diversas máquinas que serviam para fazer massas e abriu o Museu do Macarrão. Funcionou até o ano passado na sede da Zini Produtos Alimentícios, no bairro do Limão. Acabou virando uma cantina. “Estamos analisando se iremos reabri-lo em um galpão ou na carreta de um caminhão, como museu itinerante.”

RELIGIOSIDADE
A entrevista que teria sido dada pelo espírito de Lampião ao dono do Museu da Voz não é o único caso, digamos, mediúnico em exposição na cidade. Na Lapa, o Instituto de Cultura Espírita de São Paulo mantém o Museu Espírita. Entre as peças, um busto de Allan Kardec, um mapa assinalado com as rotas de suas viagens para disseminar o espiritismo - foram 268 localidades de 38 países em 12 anos, a bordo de uma charrete - e um acervo de 4.600 livros. O mais curioso, entretanto, são os quadros pintados no centro espírita contíguo ao museu. Com traços similares ao de grandes artistas plásticos da história, são atribuídos aos espíritos de Picasso, Di Cavalcanti, Monet, Renoir e outros.

Em Barueri, na Grande de São Paulo, fica o Museu da Bíblia, organizado pela Sociedade Bíblica do Brasil. Em uma área de 900 metros quadrados, o acervo traz textos religiosos em mais de 200 idiomas e uma réplica da prensa de Gutemberg. Também podem ser vistos ali materiais que aparecem nas escrituras, como trigo, joio, água do Rio Jordão e do Mar Morto e algumas sementes de mostarda.

A ampla variedade de museus de São Paulo não atrai apenas os moradores da cidade que adoram passeios cult. Levantamento da São Paulo Turismo mostra que 83% das pessoas que vêm de fora já visitaram ou pretendem conhecer ao menos um desses espaços. “Mas infelizmente os museus, de modo geral, estão despreparados para receber turistas”, lamenta o museólogo Andre Angulo, do Grupo de Trabalho em Turismo Cultural da Associação Brasileira de Museologia.


SERVIÇO
Modateca: Avenida Engenheiro Eusébio Stevaux, 823, Santo Amaro. Telefone: 5682-7455. Grátis.
Museu da Bíblia: Avenida Pastor Sebastião Davino dos Reis, 672, Vila Porto, Barueri. Telefone: 4168-6225. Grátis.
Museu da Mágica: Rua Silva Bueno, 519, cj. 42, Ipiranga. Telefone: 2061-7373. Site: www.museudamagica.com. R$ 18,00 (dias úteis) e R$ 30,00 (fim de semana). É preciso agendar.
Museu da Matemática: Rua Gaspar Lourenço, 64, Vila Mariana. Telefone: (12) 3931-7281. Grátis.
Museu da Tecnologia: Avenida Engenheiro Billings, 526, Jaguaré. Telefone: 3768-5785. Site: www.museutec.org.br. Grátis.
Museu da Voz: Praça Benedito Calixto, 86, ap. 62, Pinheiros. Telefone: 3062-0015. Grátis. Agendar.
Museu das Invenções: Rua Doutor Homem de Mello, 1.109, Perdizes. Telefone: 3873-3211. Site: www.museudasinvencoes.com.br. R$ 10,00.
Museu do Crime: Praça Professor Reinaldo Porchat, 219, Butantã. Telefone: 3039-3460. Grátis.
Museu do Relógio: Avenida Mofarrej, 840, Vila Leopoldina. Telefone: 3646-4000. Site: www.dimep.com.br. Grátis.
Museu dos Óculos: Rua dos Ingleses, 108, Bela Vista. Telefone: 3149-4000. Site: www.miguelgiannini.com.br. Grátis.
Museu Espírita: Rua Guaricanga, 357, Lapa. Telefone: 3834-6225. Grátis. Agendar.


Segunda-feira, 1 setembro de 2008

4 de dez. de 2008

Garis por um dia

VOLUNTARIADO
Varrer a Paulista e a Praça da Sé é o programa de uma turma de ongueiros para este domingo

Os paulistanos Sofia Takese e Edmilson Martins pretendem cair da cama às 5h30 neste domingo (1º). Das 8 horas ao meio-dia, dividirão com outras 1 500 pessoas a tarefa de varrer a Avenida Paulista e a Praça da Sé. Por quê? Bem, é que promover a limpeza física seria um meio de obter limpeza espiritual e social, princípio da ONG de que participam, a Zeladoria do Planeta. "Considero uma lição de humildade", afirma Martins, que no horário comercial trabalha como professor. Integrante do grupo desde 2004, ele relata pelo menos uma mudança provocada pela vida de faxineiro por um dia. "Aprendi a arrumar meu quarto", conta. Sofia, funcionária de um hotel, participará pela terceira vez. "Todo mundo reclama da sujeira de São Paulo", diz. "Mas ninguém se mexe para embelezar a cidade."

A idéia de varrer espaços públicos nasceu no Japão, em 1992, e chegou ao Brasil quatro anos mais tarde pelas mãos do empresário Hideaki Iijima. Japonês radicado em São Paulo (é dele a rede de salões de beleza Soho), Iijima foi a seu país natal em 1995 ajudar na reconstrução da cidade de Kobe, devastada por um terremoto. Deparou com voluntários da Zeladoria munidos de vassoura, o que lhe pareceu estranho diante de um desastre com 6 500 mortos. "Quando cada um cuida de sua parte, por menor que seja, faz diferença", explica. A julgar por sua rotina, ele leva a idéia a sério. Todos os dias, é visto varrendo a Rua Manuel da Nóbrega, no Paraíso, onde mora, entre 4h30 e 5h30. Se ele sonha em ver os paulistanos seguir seu exemplo? Mais ou menos. "Não jogar sujeira no chão já seria um bom começo."


Quarta-feira, 4 de junho de 2006

3 de dez. de 2008

Hóspedes de inverno

AMBIENTE
Em busca de comida, milhares de aves migratórias passam a estação em praças, parques e no Zoológico de São Paulo

Todos os anos, 1,5 milhão de pessoas visitam o Zoológico. Quem escolhe fazer o passeio entre maio e setembro tem a chance de admirar um espetáculo à parte. Por causa do frio, o parque recebe cerca de 3 000 aves hóspedes, principalmente irerês e marrecas-caneleiras. "São animais encontrados em todo o Brasil e em alguns países da América do Sul", afirma o biólogo Guilherme Augusto Domenichelli, do Zôo. "Os que vêm para cá são provenientes de regiões ao sul, onde o inverno é mais rigoroso." Essa bicharada toda, que curte o friozinho na cidade grande, encontra no Zoológico o que mais falta em seu ambiente natural nesta época: alimentação abundante. Alojadas ao redor do lago principal, as aves têm à disposição, além de vermes, moluscos e plantas aquáticas que compõem o ecossistema, ração à base de milho. Para se ter uma idéia, os tratadores deixam ali 300 quilos diários de ração, 100 a mais que no restante do ano.

Outras áreas verdes da cidade também abrigam aves viajantes. É o caso dos 32 parques municipais, que, no total, representam 15 milhões de metros quadrados de natureza, refúgio perfeito para exemplares de papa-moscas-joão-pires, tesoura-do-brejo e verão, entre outros. "Eles vêm porque acham comida grátis", brinca o ornitólogo paulistano Johan Dalgas Frisch, presidente da Associação de Preservação da Vida Selvagem e autor do livro Aves Brasileiras. "O verão macho, por exemplo, tem uma bela penugem avermelhada. Nos meses de junho, julho e agosto, pode ser visto às margens da Represa de Guarapiranga e nos parques do Ibirapuera e da Aclimação." No fim de agosto, quando o inverno está quase terminando, os cerca de cinqüenta pássaros dessa espécie que se hospedam em São Paulo voltam para o sul do Brasil, Argentina e Uruguai, onde constroem seus ninhos e se reproduzem. Suiriris, coleirinhas, tizius e bacuraus são outras aves que costumam passar pela cidade nesta estação, embora raramente se alojem por aqui. "Elas migram até a Amazônia. São Paulo apenas faz parte da rota", explica Frisch.

Apaixonado por aves há quase sete décadas, o ornitólogo lamenta que o paisagismo urbano não seja projetado para receber os pássaros. "A partir dos anos 60, o número de espécies na cidade caiu muito", diz Frisch. Para ele, a falha está na escolha das plantas. Há uma exagerada preocupação com sua aparência e não se leva em conta que são seus frutos e flores que atraem a fauna. "Para povoarmos o céu da cidade, precisaríamos de muitas amoreiras, pitangueiras, mangueiras, jabuticabeiras, caquizeiros..." Com mais árvores frutíferas, quem sabe nossos hóspedes de inverno não se sentiriam mais em casa?


Quarta-feira, 21 de junho de 2006

2 de dez. de 2008

Cem anos de lentidão

HISTÓRIA
A primeira vez que um engarrafamento parou a cidade – pasme! – foi há quase um século

Há 97 anos, a aristocracia paulistana tirou do armário suas melhores roupas. E, da garagem, os poucos veículos existentes em São Paulo, que naquele dia, 12 de setembro de 1911, data da inauguração do Teatro Municipal, formaram o que se acredita ter sido o primeiro engarrafamento da cidade. Quantos carros? Uns 300. O aparentemente inofensivo número de automóveis foi suficiente para dar cabo do sossego reinante nas ruas, até então dominadas por bondes e pedestres. Não existia estrutura, quase um século atrás, para suportar aquele tráfego. "Nosso centro, como o das cidades portuguesas, está cheio de vias estreitas e tortuosas", explica o engenheiro Jaime Waisman, especialista em transporte urbano.

O problema não parou de piorar. Sobretudo a partir dos anos 60, quando buzinaços, congestionamentos e dores de cabeça tornaram-se cada vez mais freqüentes. Vinha à tona, ou melhor, às ruas, o lado mau da fabulosa aceleração vivida pela indústria automobilística – como acontece hoje. Ironicamente, a velocidade nas ruas parece ter diminuído de maneira inversamente proporcional à da criação das linhas de produção. Uma evidência dos primeiros sinais de lentidão foi o início da discussão de temas que até hoje estão na ordem do dia para os motoristas paulistanos. É o caso da necessidade de regulamentar a carga e descarga de mercadorias. No dia 25 de novembro de 1964, por exemplo, lojistas reuniram-se na Associação Comercial de São Paulo para debater suas implicações. Basta observar a quantidade de novos veículos da capital registrados ano a ano no Detran para compreender o tamanho da questão. De 1901 a 1959, o número havia batido na casa dos milhares apenas uma vez – no ano inteiro de 1951, foram licenciados 1 146 carros. A partir de 1960 a frota passou a crescer sem parar. "Mesmo assim, não eram comuns complicações no fluxo de veículos", afirma o engenheiro de transportes Isao Konno. "Os congestionamentos aconteciam quando chovia muito ou em caso de acidentes e grandes eventos."

Um novo boom marcou os anos 80. Com o Plano Cruzado, em 1986, 1,1 milhão de automóveis foram fabricados no Brasil. "O congelamento de preços provocou um ganho real expressivo de salário", lembra o economista Carlos Alonso de Oliveira, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. "Além disso, as taxas de juros baixaram, facilitando a compra em prestações que cabiam no bolso do consumidor." As filas de espera por um modelo zero-quilômetro chegavam a oito meses. Resultado: na virada para 1990, a cidade contava com 3,4 milhões de veículos. E o Plano Real, em 1994, facilitou ainda mais a compra parcelada. "Existia uma demanda reprimida, que se beneficiou disso", diz Oliveira. Desde então, a frota só cresceu. O resto da história os paulistanos já sabem. E transformam-se em seus protagonistas toda vez que colocam os pés em um ônibus ou no acelerador.


Quarta-feira, 2 de julho de 2008

1 de dez. de 2008

Enquanto o papa não vem

RELIGIÃO
Como vivem os 35 monges beneditinos que, no coração de São Paulo, se preparam para hospedar Bento XVI

São 5h05 da manhã e no centro da cidade ainda não se ouve aquela barulheira que costuma acompanhar o despertar do dia. Nas mãos de um monge, o sino badala pelo claustro do Mosteiro de São Bento, no largo de mesmo nome, para acordar os outros 34 religiosos que moram ali. Eles estarão a postos em 25 minutos no altar da ainda fechada Basílica de Nossa Senhora da Assunção, onde irão entoar o Ofício Divino, primeira das cinco orações do gênero celebradas dia após dia. O ritual, sem trocadilho, se repete religiosamente desde 1598, quando a ordem beneditina chegou a São Paulo. Essa rotina figura entre as orientações contidas nos 73 capítulos da Regra de São Bento, conjunto de normas cuja autoria é atribuída ao santo católico que viveu entre os anos 480 e 550.

Na última Quarta-Feira de Cinzas, quando o abade Mathias Tolentino Braga, autoridade máxima da comunidade, conduziu a tradicional reunião com as recomendações para a Quaresma, um assunto especial esteve em pauta: a visita que o papa Bento XVI fará à cidade, entre 9 e 11 de maio. Toda a comitiva, formada pelo pontífice e por outros doze religiosos, ficará hospedada no mosteiro. "Sempre enxergamos no hóspede a figura de Cristo", explica o abade. "Em se tratando do papa, essa relação é ainda maior." Tradicionalmente, os monges deixam seis quartos reservados para eventuais visitantes. "Por razões de segurança e de espaço, não temos como acolher qualquer um", conta o monge João Evangelista Kovas, prior do mosteiro – uma espécie de vice-abade. "Assim, quem passa por aqui é, em geral, religioso. E traz cartas de recomendação de padres ou bispos." Por ano, cerca de 300 pessoas hospedam-se no Mosteiro de São Bento.

A visita papal apressou reformas que estavam previstas para os próximos anos. Algumas celas, quartos despojados que servem de aposento aos monges, serão repintadas, e os dois jardins do claustro deverão ganhar novo paisagismo. "Tudo precisa estar impecável", diz o prior Kovas. Bento XVI ficará em um quarto de 20 metros quadrados e terá, à sua disposição, um escritório com acesso à internet, uma sala de reuniões e uma pequena capela para celebrar missas particulares. Como ali será o local de descanso para a intensa programação do papa, a recomendação é que ninguém o aborde pessoalmente. O abade Braga sugeriu também que todos os monges lessem a encíclica Deus É Amor, que Bento XVI publicou no Natal de 2005. Obras de arte, danificadas pela poluição e pela fumaça de incenso e velas, estão sendo recuperadas pela restauradora Nilva Calixto, desde julho hospedada no mosteiro com dois assistentes, um deles seu marido. Dormem em celas separadas. Desde 1991, quando prestou seus primeiros serviços aos monges, ela se tornou a responsável pela manutenção do acervo beneditino. É um caso raro em que se permite a entrada de uma mulher no claustro. "Procuro só fazer os trajetos necessários aqui dentro", diz Nilva.

Tombada em 1992 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp), a construção atual do mosteiro foi erguida de 1910 a 1914. É um projeto do arquiteto alemão Richard Berndl. No alto de suas duas torres, seis sinos repicam. O maior deles pesa 5,5 toneladas e tem quase 2 metros de altura. Esculpida pelo artista Heinrich Waderé, também da Alemanha, há uma imagem de bronze de São Bento em cima do portal de entrada. Mas as maiores atrações estão no interior. No teto da nave central, por exemplo, foram retratados três episódios da vida do santo. À esquerda de quem entra, fica um enorme órgão alemão com 7 000 tubos. O altar principal foi confeccionado com granito polido do Lago Maggiore, na Itália. E o baldaquino, de mármore branco de Carrara, sustenta-se por quatro colunas de pórfiro vermelho da Sibéria, com capitéis de bronze.

Para marcar a visita do papa, a padaria do mosteiro criou um bolo especial. Beneditino há doze anos, o monge-confeiteiro Bernardo Schuler, responsável pela produção dos setenta pães e cinqüenta bolos vendidos diariamente, decidiu inovar a fórmula do sazonal bolo pascal deste ano. "Providenciei uma receita alemã e, desta vez, a última fornada não será no domingo de Páscoa, mas sim no mês de maio", diz ele, que no trabalho é auxiliado por outros três religiosos. E será que Bento XVI vai aprovar o bolo? "É feito para pessoas com paladar refinado", afirma. "Mas, se os outros deram certo, não tem como esse não ficar bom." No estoque fixo da loja há três tipos de bolo (de 35 a 40 reais) e três de pão (o de mel sai por 5 reais, o de mandioquinha, por 10 e o integral, por 15).

Segundo os monges, quase todo dia aparece por lá gente que se diz interessada em abraçar a ordem. Somente quatro pessoas foram aceitas no ano passado. "Um dos irmãos é designado para acompanhar o candidato, saber mais sobre sua vida e ajudá-lo a ter certeza da aptidão para a vida monástica", conta Kovas. Essa primeira etapa leva por volta de oito meses. Quem é admitido se torna postulante. Passa a vestir uma túnica simples e, durante seis meses, participa das atividades da comunidade. Após esse período, retorna para casa por uma semana, a fim de refletir se pretende ou não permanecer no mosteiro. Se decidir que sim, é acolhido como noviço e, em um ritual chamado de "vestição", recebe o capuz e o cinto monásticos. O noviciado dura dois anos, durante os quais ele estará proibido de sair da clausura. "Tornar-se monge é uma decisão muito solitária, que, em geral, as famílias não recebem bem", afirma Eduardo Uchôa Fagundes Júnior, monge há onze anos. "Minha mãe só chorava, não sabia se era de tristeza ou de felicidade", lembra Bento Gartner, que está no mosteiro desde 2000. Concluído o tempo de noviciado, se desejar continuar a vida ascética, o religioso pede ao abade para se tornar um professo simples. São mais três anos de oração e estudos, ao fim dos quais fará os votos perpétuos. Antes, é submetido a uma votação da comunidade e, para ser aceito definitivamente no grupo, precisa ter a aprovação de 75% dos membros. "Analisamos o conjunto da vida dele", diz Kovas. "Afinal, a gente percebe se ele pegou bem o espírito da coisa."

Assim que entra no noviciado, o monge adota outra identidade. "Trocar o nome significa mudar de vida, assumir uma missão", afirma João Evangelista Kovas, ou Alexandre, no RG. O noviço faz uma lista com três sugestões e a submete à escolha do abade. No que foi considerado uma honra, o monge Ademir Gartner passou a ser chamado de Bento. É que ele nasceu em 11 de julho, data da festa do santo que criou a ordem. Todos os pertences do novo monge que ingressa no mosteiro são integrados à comunidade monástica. "Nós, como pessoa física, não temos sequer conta em banco", diz o prior. "E se, por ventura, recebermos uma herança, a mesma passa para o mosteiro." Foi assim, e por meio de doações, que o patrimônio dos beneditinos engordou consideravelmente desde a sua instalação, em julho de 1598, em um terreno entre as águas dos rios Anhangabaú e Tamanduateí. Atualmente, pertencem a eles um edifício comercial de dezessete andares a menos de 100 metros da abadia, seis escritórios nas avenidas Paulista e Brigadeiro Faria Lima e uma fazenda de 400 alqueires no município de Mogi das Cruzes. A renda obtida com esses imóveis se soma aos lucros com o colégio e a faculdade anexos ao mosteiro para manter os religiosos e pagar os seus 150 funcionários – professores, seguranças, secretárias e telefonistas, entre outros. Mas os beneditinos não revelam as cifras de seu orçamento nem quanto ganham com a venda de bolos e pães.

A tradição do canto gregoriano – que atrai 600 pessoas à missa dominical das 10 horas – preserva-se nas orações dos monges. Todos eles participam do coro. E lêem muito. "Pode-se dizer que a cultura letrada do Ocidente só sobreviveu durante a Idade Média por causa dos mosteiros, que sempre tiveram grandes coleções de livros", acredita Eduardo Uchôa, responsável pela biblioteca de 90 000 volumes. Algumas obras são raríssimas, como um incunábulo – nome dado aos livros rudimentares impressos no século XV – de 1496 com biografias em latim de santos católicos. O hábito de ler é cultivado até durante as refeições. Enquanto os outros comem, em um silêncio que é quebrado apenas no Natal, na Páscoa e no dia de São Bento, um monge é designado para recitar textos bíblicos e trechos de livros de história. O almoço e o jantar são completos: há entrada, prato principal, sobremesa e café. Às sextas, nada de carne. Durante a Quaresma, eles se abstêm também às quartas-feiras. Para acompanhar, água e suco. "Aos domingos, tomamos cerveja", revela o prior Kovas. "Uma latinha por monge."

Embora conservem uma austeridade e um ritmo de vida quase medievais, os monges não são tão isolados do mundo exterior. Em cada cela existe um ramal de telefone, e o claustro conta com seis computadores conectados à internet. Há a televisão comunitária, utilizada com pouca freqüência, e uma sala com os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo e a revista VEJA. A cada ano, eles podem tirar quinze dias de férias, quando são liberados para visitar os familiares. Alguns, porém, aproveitam o período para se recolher em retiros espirituais. É nessa vida fechada, com valores tão diferentes dos compartilhados pela maioria da sociedade contemporânea, que o papa Bento XVI, durante os três dias e as duas noites em que estiver na cidade, daqui a dois meses, encontrará refúgio, acolhida e paz.


Quarta-feira, 7 de março de 2007