7 de mar. de 2009

O primeiro tango na Berrini

DANÇA
Evento de rua que deve começar a partir de amanhã será semanal

Carlos di Sarli, Francisco Canaro, Osvaldo Pugliese, Anibal Troilo... O paulistano que está familiarizado com esses nomes certamente vai adorar. Quem nunca os ouviu terá a chance de conhecer a obra deles e de outros mestres do tango em evento gratuito e aberto na tarde de amanhã – se não chover. Às 17 horas, a Praça General Gentil Falcão – que fica na altura do número 1.000 da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Brooklin – será transformada num verdadeiro salão de dança. O programa, organizado por um grupo de apaixonados pelo estilo musical argentino, deverá se repetir semanalmente.

“No ano passado, eu viajei para a Europa e vi como esse tipo de coisa é muito comum por lá”, afirma o advogado Jairo Braz de Souza, de 65 anos, um dos idealizadores do projeto, batizado de Tango na Rua. Entre outros lugares, a prática acontece no Largo do Carmo, em Lisboa, Portugal, e no Hyde Park, em Londres, na Inglaterra. Além, é claro de Buenos Aires, capital argentina e capital mundial do tango. “Queremos mostrar para as pessoas que o tango é viável. Exige um certo preparo e paciência, mas não é impossível de ser aprendido”, completa o advogado, que se dedica à dança há três anos.

Outra “fãzaça” do estilo é a psicóloga Virgínia Hollaender, de 63, que começou a dançar como consequência de sua profissão. “Há uns 13, 14 anos, quando abri meu consultório, notei que muitas pessoas recém-separadas tinham dificuldades para refazer sua vida”, lembra. “Resolvi promover alguns bailes para dar a oportunidade a eles de se conhecerem.” O primeiro desses eventos aconteceu em 1995.

No começo ninguém arriscava passos de tango. Até que, no mesmo ano, a psicóloga resolveu acompanhar um festival de dança no Rio e lá conheceu um casal de argentinos. “Convidei-os para dar um workshop de tango ao meu pessoal daqui”, conta. “Me entusiasmei e também aprendi.” Virgínia se transformou em uma grande divulgadora do gênero. Organizou pelo menos 14 excursões para Buenos Aires com o objetivo de mostrar aos paulistanos a beleza do tango. A psicóloga continua acreditando que a dança ajuda a aproximar as pessoas. Foi em um baile, aliás, que ela conheceu seu terceiro e atual marido. Mas não, não era de tango. “Depois ele aprendeu comigo e hoje também dança”, afirma.

Os organizadores do evento esperam receber pelo menos 200 pessoas. Estima-se que, dentre os 4 mil paulistanos que praticam assiduamente algum tipo de dança, cerca de 300 se dediquem ao tango. “A maior parte está na faixa dos 40, 50 anos, mas já têm aparecido alguns praticantes com cerca de 25 anos”, afirma o jornalista Milton Saldanha, de 63 anos, proprietário do jornal Dance, especializado no tema, que há 15 anos circula gratuitamente nas escolas de dança. Na Grande São Paulo, há 120 academias de dança – quase todas oferecem a modalidade, mas apenas uma, na Vila Mariana, é especializada exclusivamente em tango. “É um mundo ainda muito pequenininho”, admite Saldanha.

Para quebrar qualquer preconceito dos mais jovens, a arquiteta (por formação) e professora de tango (por opção) Juliana Maggioli estará amanhã na praça. Aos 25 anos, recém-graduada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, ela decidiu transformar o hobby em profissão. “Dou aula em três academias e tenho cinco alunos particulares”, diz. “Durante o Tango na Rua, quero ajudar as pessoas que estão começando a dançar. E contrariar o mito de que o tango é algo ultrapassado e para velhos.”


Sábado, 7 de março de 2009

6 de mar. de 2009

No 'resgate' de estátuas, coletes salva-vidas

PATRIMÔNIO
Duque de Caxias, José Bonifácio e Rui Barbosa terão coletes

Não fique espantado ao se deparar, a partir do dia 19, com a famosa estátua do Borba Gato usando um alaranjado colete salva-vidas. Não será a única. Rui Barbosa, Duque de Caxias, José Bonifácio e Luís de Camões também receberão a “homenagem”. A irreverente iniciativa é mais uma intervenção urbana do artista plástico paulistano Eduardo Srur - que no início do ano colocou 20 garrafas PET gigantes nas margens do Rio Tietê, na zona norte de São Paulo.

Intitulada Sobrevivência, a montagem colocará 25 bóias em 16 monumentos. “Quero fazer as pessoas pensarem em resgatar o patrimônio público”, explica. “Mas não só isso. Ao mesmo tempo, é preciso salvar a memória e os próprios sentidos de quem passa, anestesiado, pelas ruas.” Feitos sob medida - o maior, com 6 metros de altura, é o do Borba Gato -, os coletes são de espuma, alumínio e náilon. Poderão ser vistos até o dia 14 de dezembro. O projeto é bancado pelo Centro Cultural Banco do Brasil.

Foram dois anos para que Srur conseguisse pôr a idéia em prática. Em maio de 2007, conseguiu implementar, digamos, uma versão reduzida do projeto. Durante a Virada Cultural, instalou os tais coletes no Monumento a Carlos Gomes, conjunto de obras de Luiz Brizzollara na Praça Ramos de Azevedo. “Para conseguir a autorização de todos os órgãos, precisei mostrar tanto o conceito do projeto quanto a minha pesquisa de arte no espaço público”, conta Srur.

Depois do aval do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) e da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), o artista decidiu explicar suas intenções aos herdeiros dos direitos das obras. “Felizmente, não tive nenhum problema”, afirma.

PET NA GUANABARA
Esta será a décima intervenção de Srur na cidade. Ele colocou as já citadas garrafas PET no Rio Tietê, equilibrou seis bicicletas em cabos de aço na Avenida Paulista (2007), espalhou bonecos de plástico remando sobre cem caiaques no Rio Pinheiros (2006), colocou uma âncora no Monumento às Bandeiras (2004) e pendurou 35 barracas de camping no “esqueletão” da Doutor Arnaldo (2004), entre outras iniciativas.

Se tudo der certo, em breve o Rio ganhará sua versão das garrafas PET gigantes. “Já fiz uma visita técnica e comecei as negociações”, antecipa o artista. Elas seriam instaladas na Baía de Guanabara.

Aos 34 anos, Srur experimenta um estranho jeito de ser famoso. Muitos paulistanos podem nunca ter ouvido o nome dele. Mas, como transforma a cidade na grande tela para suas obras, é difícil quem já não tenha cruzado por aí com uma delas. Que sempre fazem uma crítica social com uma boa dose de humor.


MONUMENTOS ‘PROTEGIDOS’

Anhangüera, na frente do Parque Trianon, na Avenida Paulista
Armando de Salles Oliveira, Praça Reinaldo Porchat
Borba Gato, Praça Augusto Tortorello de Araujo
Camões, Praça Dom José Gaspar
Cristóforo Colombo, Praça Pan-americana
Ibrahim Nobre - O Tributo, Parque do Ibirapuera
José Bonifácio de Andrada e Silva, Praça do Patriarca
Luiz Pereira Barreto, Praça Marechal Deodoro
Monumento a Carlos Gomes, Praça Ramos de Azevedo
Monumento à Independência, Parque da Independência
Monumento a Ramos de Azevedo, Praça Ramos
Monumento ao Duque de Caxias, Praça Princesa Isabel
Rui Barbosa, Praça Ramos de Azevedo
San Martin, Praça General San Martin
Semeador, Praça Apecatu, no Alto de Pinheiros
Vitória, na Avenida Santos Dumont


Sexta-feira, 10 outubro de 2008

5 de mar. de 2009

A santa de 4,2 milhões de casas

RELIGIÃO
Movimento da Mãe Peregrina, criado no Rio Grande do Sul em 1950, cresceu, se espalhou e ganhou imitadores

Uma vez por mês é dia de visita na casa da família Ozaki, na Vila Clementino. "Recebemos uma convidada especial", diz a dona de casa Dulce da Silva Ozaki. "Fica sempre na sala, com uma vela e um vaso de flor ao lado."

Trata-se de uma das 140 mil imagens da Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável, mais conhecida como Mãe Peregrina, que diariamente vão de casa em casa no País. Elas atingem um total de 4,2 milhões de famílias católicas. Só na capital paulista são 6.700 capelinhas da santa e mais de 200 mil lares participantes.

O movimento das imagens itinerantes começou em 10 de setembro de 1950. A religiosa Teresinha Gobbo, do Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt, mandou fazer três capelinhas. Escolheu três católicos de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e deu uma imagem para cada um. Com a singular missão: fazer a santa visitar uma família por dia.

Só o comerciante João Luiz Pozzobon, viúvo e pai de sete filhos, levou a incumbência a sério. Calcula-se que até a sua morte, em 1985, tenha percorrido 140 mil quilômetros com a imagem. A quem quisesse colaborar, ofertava réplicas da capela - isso fez o movimento crescer com o tempo e ganhar mais divulgadores.

"Quando ele morreu, nós decidimos assumir a organização da campanha", conta a religiosa Maria Caroline Gomes, do Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt. A entidade tem coordenadores espalhados em grande parte das dioceses do Brasil.

Cada família participante recebe a imagem uma vez por mês. No dia seguinte, tem de levá-la a um vizinho, que faz o mesmo. "Acolher a Mãe transformou nossa vida", diz a dona de casa Angelita Enides Rocha, que mora no bairro da Pedreira e integra o movimento há dez anos. "Paramos de discutir por motivos bobos."

O Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt utiliza a tradição como ferramenta de evangelização. "Nosso objetivo é resgatar os valores da família cristã e a dignidade humana", explica a religiosa Maria Caroline.

No que depender de oração, vem dando certo. "Nas noites em que a imagem está em casa, sempre rezamos juntos", conta a dona de casa Dulce da Silva Ozaki. "Até o namorado de minha filha participa."

Alguns devotos não deixam a santa "sozinha" em nenhum momento. É o que acontece quando a capelinha está na casa da fisioterapeuta Sandra Souza de Queiroz, na Vila Mariana. "A imagem é o sinal da graça de Deus por nós", acredita. "Durante o dia, fica na sala, mas à noite a trazemos para o quarto. E ela me acompanha no carro, quando preciso sair."

Um dos principais divulgadores do movimento, padre Antônio Maria, faz o mesmo. Mas ele tem uma réplica particular da capelinha. "Sou inseparável dela", conta. "Levo-a em todas as viagens que faço." Ela "conhece" os principais santuários marianos do mundo e já foi abençoada pelos papas João Paulo II e Bento XVI.

"CÓPIAS"
Embora seja a maioria, não é só a Mãe Peregrina que circula por lares católicos brasileiros. Inspirados no trabalho de Pozzobon, movimentos similares surgiram em outras comunidades. Assim, há quem receba em casa imagens de Nossa Senhora Aparecida, de Fátima, de Guadalupe, de Lourdes...

O instituto coordenador não vê nenhum problema nessas "cópias". "Eles aprendem conosco, e nós, com eles", diz a religiosa Maria Caroline.

Nos lares do país com o maior número de católicos do mundo, a semente plantada graças ao suor e às solas de sapato do comerciante gaúcho João Luiz Pozzobon germinou e cresce forte. "Ele já está em processo de beatificação", conta o padre Antônio Maria. "Com certeza, um dia ele se tornará mais um santo brasileiro."

Enquanto isso, as famílias que recebem a Mãe Peregrina mostram, com fé, que continuam a tradição iniciada por Pozzobon: divulgam a devoção mariana e persistem na oração do terço.


Domingo, 5 de Outubro de 2008

4 de mar. de 2009

No prato, sorvetes de moqueca, camarão, queijo

CLIMA
Criações de SP são premiadas na Itália

Imagine chegar a um restaurante e saborear sorvetes de gorgonzola, de camarão e de chutney de manga. Isso é só a entrada. Para o prato principal, bolas de moqueca, coentro com azeite e pimenta biquinho. De quebra, a sobremesa: sorvetes de cachaça, de caju e de castanha do Pará.

Essa criação um tanto exótica, parceria do chef paulistano Bruno Stippe – da cantina C... Que Sabe! – com o mestre sorveteiro Frederico Samora – que tem uma sorveteria em Uberaba (MG), conquistou o júri formado pela imprensa especializada e arrebatou o prêmio especial do concurso Gelato in Tavola, ocorrido em janeiro em Rimini, na Itália.

“Sorvete como acompanhamento de pratos quentes é a nova tendência da alta gastronomia europeia”, acredita Stippe. Até o meio do ano, ele pretende lançar a ideia em sua cantina, no Bexiga. “Já estou preparando meus funcionários”, antecipa. E por que não aproveita o calor e coloca isso no cardápio já? “Os europeus consomem durante o ano todo, até mesmo no inverno. Quero chocar o mercado.”

Não será a primeira casa paulistana a ter sabores inusitados de sorvete servidos com refeições. No Chef Rouge – com unidades no Jardim Paulista e no Morumbi Shopping –, a chef Renata Braune esporadicamente arrisca tais experimentos. “Já servi sorvetes de ostras, manga com pimenta, queijo de cabra com tomilho e café com cerveja”, enumera Renata. “O brasileiro ainda tem um pouco de preconceito e prova com um pé atrás.” De acordo com a chef, em um prato elaborado, o sorvete pode assumir o papel que seria do molho ou da guarnição. “É interessante o contraste de sabor, textura e temperatura.”

O restaurante Picchi, no Itaim-Bibi, mantém em seu cardápio o sorvete de manjericão (R$ 14, duas bolas). Ao menos ali a, digamos, iguaria é apresentada como sobremesa – não divide espaço com os pratos principais. E aí? Vai encarar?


Terça-feira, 3 de março de 2009

3 de mar. de 2009

O bom garfo que não dói no bolso

GASTRONOMIA
Começa a 4.ª Restaurant Week; 122 estabelecimentos terão preço fixo

Para muitos paulistanos, hoje começa uma verdadeira maratona gastronômica. Em sua quarta edição, o Restaurant Week reúne 122 bons restaurantes - que até o dia 15 devem receber mais de 200 mil clientes, atraídos pelos preços fixos, de R$ 25 no almoço e R$ 39 no jantar. "É um ótimo custo-benefício", admite o médico Bruno Mendonça Coelho, que participa desde a primeira vez que o festival aconteceu.

A ideia não nasceu aqui. Em Nova York, nos Estados Unidos, o evento gastronômico acontece desde 1992. "Morei durante 11 anos lá, onde trabalhei em uma rede de restaurantes", conta o empresário Emerson Silveira, proprietário do bar Camará, na Vila Madalena, e dono da marca no Brasil. "Quando voltei, pensei que podia dar certo também na cidade."

Foram cinco anos de estudos para que a primeira edição da Restaurant Week tupiniquim acontecesse, em setembro de 2007, com a adesão de 45 estabelecimentos paulistanos. Pelo preço fixo, as casas se comprometem a oferecer entrada, prato principal e sobremesa. "É um negócio bom para todo mundo", acredita Silveira. "Ganham o dono do restaurante, os garçons e os consumidores."

Há quem planeje com antecedência a rota dos restaurantes a serem visitados. A médica e atriz Simone Zucato passou o fim de semana conferindo a lista dos participantes para traçar, com o noivo, uma programação gastronômica para as duas semanas de festival. "Pretendo jantar em restaurantes diferentes todas as noites", diz. "Adoro ir a restaurantes. Um evento como esse é fabuloso."

MOVIMENTO
Como um de seus hobbies é a culinária, Simone aproveita essas "experiências gastronômicas" para se inspirar na cozinha. "Para mim, cozinhar é um ritual. Faço pelo menos duas vezes por semana", diz. "Aprendi com a minha mãe, mas conhecendo novos pratos, tenho novas ideias."

Os restaurateurs também comemoram. "O Restaurant Week garante um movimento seis vezes maior ao meu bistrô", comenta João Renato da Silva, um dos sócios do Lola Bistrot, na Vila Madalena. "Participo desde a primeira edição."

O proprietário do Obá, nos Jardins, Hugo Delgado, precisa reforçar a equipe para dar conta da demanda - que chega a dobrar. "Revejo as escalas de folgas dos funcionários e contrato mão-de-obra adicional", revela. "Em um almoço, eu normalmente trabalho com três garçons. Durante o Restaurant Week, ficam cinco."

Em uma cidade com tanta oferta gastronômica - são 12,5 mil casas do ramo, de acordo com a SPTuris -, há opções para todos os gostos e bolsos, é verdade. Por isso essa é a chance que muitos encontram para tentar fisgar um freguês de primeira viagem. "Recebo de 30% a 40% a mais de clientes nessa época. Temos a oportunidade de conquistá-lo para que se torne um frequentador constante", acredita Alexandre Miqui, proprietário do Shimo, nos Jardins.

"No Restaurant Week, eu e minha mulher aproveitamos para ir a restaurantes como o AK Delicatessen, o Obá e o Thai Gardens", exemplifica o médico Coelho. "Pelo preço, são lugares que não conseguimos frequentar tanto. Mas, durante o festival, saem super em conta."

O número de clientes que o festival paulistano pretende atrair neste ano - 200 mil - é quase nada perto dos 2 milhões que frequentam o similar nova-iorquino no qual foi inspirado. "Mas já representa bastante", defende Silveira. "Conseguimos criar turismo gastronômico na cidade." A prova de que deu certo é que outras capitais brasileiras já estão realizando eventos iguais. No ano passado, foi a vez do Recife.

"Meus parentes, que conheciam o daqui por causa de mim, disseram que agora não são mais órfãos porque têm o deles", brinca Coelho, que é recifense e mora em São Paulo há seis anos. Rio e Brasília devem ser as próximas a receber o festival da boa comida que não dói no bolso. Confira a programação completa no site www.restaurantweek.com.br.


Segunda-Feira, 2 de Março de 2009

2 de mar. de 2009

Mais da metade dos cemitérios municipais da capital não tem vaga

ADMINISTRAÇÃO
Mesmo com o aumento de terrenos retomados pela Prefeitura, é difícil conseguir lotes permanentes

Até na hora da morte há que se esperar em São Paulo. Na cidade de 10,7 milhões de habitantes, 6,1 milhões de veículos e tantos outros números astronômicos, morrem 220 pessoas por dia e funciona o maior serviço funerário da América Latina. Uma autarquia municipal com 1,6 mil funcionários e 70 veículos administra os 22 cemitérios públicos. Mas em mais da metade deles não há vagas.

Levantamento obtido com exclusividade pelo Estado mostra que apenas 548 dos 134.128 terrenos permanentes nos cemitérios municipais estavam disponíveis na última quinta-feira. Se forem levados em conta somente os cemitérios de elite, considerados de "categoria 1" - onde o metro quadrado custa R$ 3.173,00 -, a situação é ainda pior: havia somente uma vaga no da Quarta Parada, 33 no Lapa e 43 no Araçá.

Para avaliar a possibilidade de conseguir um terreno, a reportagem entrou em contato telefônico com a administração central dos cemitérios, se identificando como potencial compradora. "No da Quarta Parada é impossível", disse a funcionária. "Lá tem fila de espera de mais de dois anos."

Um servidor administrativo do próprio cemitério exemplificou o tamanho da procura: "Quando a gente fica sabendo de uma nova vaga, já está tudo resolvido com o comprador."

Ainda assim, espaço nas chamadas quadras gerais não falta. Trata-se de lotes em que a rotatividade é grande. Para ser sepultado ali, paga-se somente a taxa de serviço, atualmente afixada em R$ 59,05.

Em três anos, os restos mortais são exumados - geralmente depositados em ossário geral - e a área volta a ser utilizada. O problema é justamente quando o familiar quer um destino definitivo ao parente.

O CAMINHO DA MORTE
Quando alguém morre, a primeira providência a ser tomada é obter uma declaração de óbito, em geral assinada por um médico. Em seguida, é preciso se dirigir a uma das 12 agências do serviço funerário paulistano. Ali os detalhes serão definidos: do tipo do caixão (os preços variam de R$ 13,70 a R$ 6.476) aos locais do velório, paramentação da urna, flores, coroa e enterro e traslado. "Em caso de compra de terreno, eles intermedeiam", afirma Manoel Carlos Ferreira Júnior, assessor-geral da Superintendência do Serviço Funerário. "A partir da contratação, há um prazo de três horas para que a agência providencie tudo."

Das cerca de 220 pessoas que morrem por dia na cidade, apenas 7% são cremadas. Outras 7% acabam transferidas para cemitérios de fora e 16% são sepultadas em necrópoles particulares - onde o terreno chega a custar R$ 40 mil. O restante (uma média de 155 mortos) é enterrado em um dos 22 cemitérios públicos municipais.

RENOVAÇÃO
Para atenuar o problema, a Prefeitura de São Paulo tem intensificado os processos de comisso. É o termo jurídico que significa perda do direito de um contrato em razão do não cumprimento do acordado. "Isso porque o lote não é vendido, mas concedido", explica Celso Jorge Caldeira, superintendente do Serviço Funerário. Ou seja: se não cuidar do local, a Prefeitura pode tomar o terreno de volta.

Mas tal operação não se trata de uma análise subjetiva. Há um longo caminho para que o comisso seja realmente efetivado. "Para iniciar um processo desses, precisamos de laudos técnicos e fotos que comprovem que o túmulo está abandonado", diz Caldeira.

A família é contatada e pode recorrer. Também é necessária a publicação de aviso em jornal impresso. O trâmite costuma levar de seis a oito meses. Cerca de metade dos casos resulta em ganho para a Prefeitura - que retoma a área e pode colocá-la à venda novamente no mercado funerário.

"Minha gestão priorizou os comissos", ressalta Caldeira. "Porque eles são necessários para preservar os cemitérios, mantê-los renovados, limpos e apresentáveis."

BALANÇO
Em 2005, 481 lotes participaram de processos de devolução compulsória - e 298 foram retomados pela Prefeitura. Dois anos depois, o balanço revelou um aumento considerável: foram 1.074 lotes postos em xeque; 596 recuperados. Em 2008, o resultado deve ser ainda melhor. No primeiro semestre foram 644 processos abertos (394 lotes retomados). E estão em andamento outros 1.582.

Caldeira não acredita que haja um problema de falta de vagas nos cemitérios da cidade. Para ele, as 236.316 quadras gerais dão conta da população de baixa renda. E, aos que querem túmulo permanente, apregoa a tese de "cemitério é um bem finito e renovável". "Os laços familiares não se estendem por mais de três ou quatro gerações", acredita. "Com os comissos, não faltam vagas."


Segunda-Feira, 15 de Setembro de 2008

1 de mar. de 2009

Camarote do Rio, chef de SP

Há 5 anos, Viko abastece a cozinha do camarote Brahma na Sapucaí
CARNAVAL 2009

Em uma operação que acontece pelo quinto ano consecutivo, na manhã da última quinta-feira quatro carretas saíram da capital paulista com destino ao Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio. Duas delas, cheias de equipamentos; outras duas, com alimentos refrigerados e congelados. O mais badalado dos camarotes do carnaval do Rio, o da Brahma, quem diria, “importa” comida e chef de cozinha de São Paulo.

O chef – que viajou ao Rio na quarta à noite – é Olivio Tangoda Martins, mais conhecido como Viko, de 43 anos, que há 18 tem empresa de bufês na Vila Mariana. Nascido em Fernandópolis, no interior paulista, ele vive na capital desde os 16 anos – veio para fazer curso de eletrônica na Escola Técnica Federal de São Paulo, no Canindé, atualmente Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (Cefet). Não concluiu o curso – “Odiava. Abandonei no último bimestre” – e passou a trabalhar como barman em casas noturnas paulistanas. “Foram uns quatro anos”, lembra. “Era o auge do Madame Satã, do Café Piu-Piu...”

Ao mesmo tempo, começou a desenhar roupas, fabricadas em uma confecção em parceria com sua mãe em Fernandópolis. “Eu fazia as compras, desenhava, voltava para lá, a gente produzia e eu vendia para lojas de São Paulo”, conta. A vida de costureiro ia bem, até que uma amiga comentou num dos encontros da turma em que Viko assumia as panelas:

– Suas roupas são muito legais, mas você cozinha melhor do que costura!

Foi a deixa para ele repensar a carreira. “Sempre gostei de cozinhar. Desde criança fritava ovo, bolinho de chuva, essas coisas”, recorda-se. No início, preparava pratos entre amigos, na casa de um, na casa de outro. Quando passou a ser requisitado por “amigos dos amigos”, como diz, viu que era a hora de se profissionalizar. “Mandei fazer um cartãozinho e entrei sério nisso.”

GRANDES EVENTOS
O trabalho de “personal chef” evoluiu para o fornecimento de alimentos em grandes eventos. “Ainda hoje sou requisitado para cozinhar nas casas de pessoas, mas faço muito pouco”, comenta ele, que costuma dizer que só atua em jantares “muito pequenos ou muito grandes”. Sua empresa tem atualmente 45 funcionários fixos – entre os quais, seus pais Olivio e Kiyoko. A cada evento, um batalhão de outros funcionários é contratado. “Chegamos a precisar de 800 em uma ocasião.”

Há cinco anos, fechou dois contratos desafiadores. Tornou-se o banqueteiro oficial do Grande Prêmio Brasil de Fórmula-1, em Interlagos, e do camarote Brahma da Marquês de Sapucaí – onde desfilam celebridades de paladar exigente nos dois dias de apresentação das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. “Não é uma equação fácil. São 1.100 pessoas por dia, em média, no camarote. Começa às 18 horas e vai até umas 7 da manhã”, explica. “Nosso trabalho começa cedinho. A gente dorme três, quatro horas por noite apenas.”

A cozinha foi instalada em duas tendas de 100 metros quadrados cada. Sob o comando de Viko, 18 cozinheiros, 20 auxiliares de cozinha e 80 garçons. No total, serão 6 toneladas de equipamentos – entre eles, 20 fornos elétricos e 18 bocas de fogão.

TONELADAS DE COMIDA
Durante a folia, os convidados poderão saborear 7 toneladas de comida. Serão 45 mil salgadinhos, 800 litros de caldinhos, 5,5 mil minipães, 300 quilos de frios, 4,5 mil sanduíches, 2,4 mil medalhões de frango, 2,4 mil hambúrgueres de cordeiro, 450 quilos de pernil de javali, 450 quilos de pernil de vitelo, 800 quilos de molhos, 18,5 mil unidades de raviolone.

Viko garante que tira de letra essa operação toda. O único senão para ele é deixar de pular o carnaval. “Quando tinha 10 anos, ganhei o prêmio de melhor folião lá em Fernandópolis, no clube Casa de Portugal”, revela, entre risos. “Não era prêmio de fantasia, não. Era prêmio de ser animado, de não parar de pular.”

A paixão pelo ziriguidum persistiu na idade adulta. “Para onde tem carnaval, eu já fui”, garante. “Salvador, Olinda, Rio... De 2005 para cá, não dá mais para aproveitar. Carnaval passou a ser para mim sinônimo de trabalho.”


Terça-feira, 24 de fevereiro de 2009