14 de abr. de 2009

TCM apura falta de vagas especiais

TRÂNSITO
Problema é a pouca oferta e a fiscalização de locais para deficiente

O Tribunal de Contas do Município (TCM) enviou na segunda-feira um memorando à Subsecretaria de Fiscalização e Controle, determinando que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) seja investigada quanto ao cumprimento da legislação de vagas de estacionamentos especiais – “com a finalidade de verificar quais medidas vêm sendo adotadas pela CET de modo a garantir vagas a deficientes, na forma estabelecida pela legislação em vigor”, diz o texto.

O documento, assinado pelo presidente do TCM, Roberto Braguim, leva em conta reportagem publicada pelo Estado no dia 2. Citando o jornal, Braguim afirma que “não vem sendo observada a legislação que disciplina, entre outras matérias, a reserva de vagas de estacionamento em vias públicas a deficientes”.

Conforme revelou o Estado, mesmo quase dobrando o número de vagas de estacionamento para pessoas com deficiência nos últimos três anos, a cidade de São Paulo mantém apenas cerca de um terço da quantidade prevista na legislação. A Lei 10.098/00 – regulamentada por um decreto de 2004 – determina que 2% do total de vagas nas ruas seja reservado para essas pessoas. Como a capital tem 32.112 locais de estacionamento, 642 deveriam ser exclusivos para esse fim. No entanto, há somente 241 – 0,7% do total.

Além de estarem em número insuficiente, muitas vezes essas vagas não são fiscalizadas corretamente. No fim de março, a reportagem flagrou desrespeitos nas ruas da cidade – na Rua Líbero Badaró, por exemplo, havia uma caçamba de lixo em cima de uma vaga especial. Entre julho e dezembro do ano passado, a CET registrou 2.204 autuações de pessoas que estacionaram em vagas exclusivas. A multa é de R$ 53,20, com perda de três pontos na carteira.

De acordo com a Assessoria de Imprensa do TCM, nos próximos dias uma equipe de auditores vai às ruas para constatar se a legislação vem sendo cumprida. A CET declarou, via Assessoria de Imprensa, que não vai se manifestar enquanto não for informada oficialmente.


Sexta-feira, 10 de abril de 2009

13 de abr. de 2009

Veto no Palácio há 19 meses

CIGARRO BANIDO

No Palácio dos Bandeirantes, sede administrativa do governo estadual, o fumo é completamente proibido desde setembro de 2007. Quando o governador José Serra (PSDB) assumiu, dos 1,1 mil funcionários, cerca de 250 eram fumantes. Podia-se fumar em qualquer repartição.

Logo em janeiro surgiu a primeira medida: haveria fumódromos para quem continuasse com o hábito. Nos outros ambientes, nada de fumacê. Nove meses depois, a restrição foi total. O funcionário que persistiu fumante precisa sair até a avenida.

Paralelamente, o Palácio firmou uma parceria com o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) para auxiliar os servidores que decidissem abandonar o vício. “Os interessados se inscrevem no programa e passam por uma entrevista com um médico para ver o grau de dependência”, explica a coordenadora do projeto antitabagista interno, Silvia Regina Alessio. “O fumante recebe medicamentos ou adesivos de nicotina e passa a ter acompanhamento psicológico. Uma vez por semana, há reuniões com o grupo.”

Já passaram pelo programa 148 pessoas e 87 disseram adeus ao cigarro. É o caso da diretora do Núcleo de Pessoal, Cleuzenir de Assumpção, de 55 anos. “Comecei a fumar com 12 anos. Era de dois a três maços por dia”, conta. Ela participou do programa por dois meses. Usou adesivos e chicletes de nicotina. “No fim, marquei uma data e fiz um enterro simbólico de um maço de cigarros no Parque do Ibirapuera.”


Quinta-feira, 9 de abril de 2009

12 de abr. de 2009

SP ganha primeiros mapas táteis

ACESSIBILIDADE
Fundação Dorina Nowill e Estação Santa Cecília do Metrô têm os seus

Um projeto desenvolvido pela Fundação Dorina Nowill para Cegos em parceria com o Complexo Educacional Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) pretende facilitar a vida dos deficientes visuais paulistanos. Na quarta-feira foi lançado, na sede da fundação (Rua Dr. Diogo de Faria, 558, Vila Clementino), um mapa tátil com os principais pontos da região.

Graças aos desenhos em relevo e às informações em código braile, os frequentadores da instituição conseguem identificar nele as ruas e os principais estabelecimentos do bairro, como hospitais, igrejas, restaurantes e a Estação Santa Cruz do Metrô. Os dados também estão impressos em tinta, com alto contraste, para ajudar pessoas com pouca visão.

Deficiente visual desde 2002, a professora Diana Ferreira Rocha de Oliveira testou e aprovou o mapa, que mede 1,2 m por 1,2 m. "Facilita muito, porque com ele temos uma boa noção da distância e sabemos onde estão os semáforos", exemplifica. Ela mora em Caieiras, município da Região Metropolitana de São Paulo e uma vez por semana toma, sozinha, ônibus, trem e metrô para ser atendida pela Fundação Dorina Nowill.

MAIS MAPAS
Esse não é o único mapa para cegos da cidade. Há uma semana, o Metrô inaugurou um guia parecido, medindo 0,8 m por 0,8 m, na Estação Santa Cecília. "Queremos facilitar a circulação nos arredores da estação e auxiliar a compreensão do espaço urbano", explica Maria Beatriz Barbosa, chefe do Departamento de Relacionamento com o Cliente da companhia.

Ambos os projetos foram desenvolvidos em parceria com o Departamento de Arquitetura da FIAM/FAAM, que integra o complexo FMU. De acordo com a coordenadora do curso de Arquitetura, Paula Katakura, um mapa assim leva cerca de dois meses para ser produzido. "Fazemos uma revisão do que existe nas ruas e procuramos indicar os equipamentos urbanos mais utilizados pelos deficientes, como hospitais e centros de atendimento", conta. Vinte profissionais estiveram envolvidos na confecção do mapa da Fundação Dorina Nowill, entre professores e alunos da universidade e técnicos da fundação.

O projeto não deve parar por aí. "Iremos desenvolver um manual para o Metrô, a fim de que nas novas licitações de estações já sejam previstos mapas táteis", antecipa Paula. A companhia confirma ter interesse em implantar os guias, gradativamente, em todas as estações da cidade. "Ainda não definimos onde ficará o próximo, mas é possível que seja o da (Estação) Santa Cruz, justamente por causa da proximidade com a Fundação (Dorina Nowill)", diz Maria Beatriz.

No que depender da fundação, aliás, o cumprimento da promessa será cobrado. "Eles (do Metrô) têm um compromisso com a gente de colocar (os mapas táteis) em todas as estações", frisa a diretora executiva responsável pelo voluntariado da Fundação Dorina Nowill, Ika Fleury. "Na semana que vem mesmo quero marcar uma reunião com eles para definirmos as próximas estações (a receber os mapas) e os prazos."

INDEPENDÊNCIA
Para a pedagoga especializada em deficiência visual Maria Glicélia Alves, professora de orientação e mobilidade da fundação, o mapa se transformou em uma útil ferramenta de trabalho. "É uma contribuição valiosa. Com ele, consigo trabalhar no concreto. As pessoas reconhecem as ruas e se orientam melhor", explica. "O que a gente quer é a independência desse deficiente", completa a diretora Ika.

Um "efeito colateral" da implantação dos mapas táteis vislumbrado pela diretora é que os futuros profissionais de engenharia e arquitetura eduquem seu olhar para a causa dos deficientes. "Quando os alunos da universidade veem esses projetos, eles podem imaginar novas aplicações do que se pode fazer em termos de acessibilidade."

Ika ressalta que iniciativas assim são importantes naquela região por causa do grande número de entidades assistenciais situadas ali. Desde o final de 2007, 35 instituições dos bairros da Vila Clementino, Vila Mariana, Aclimação, Paraíso e Bela Vista formam o Projeto Conexão. Além da fundação, ficam na região entidades como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc).

LOCALIZAÇÃO INTERNA

O Centro Cultural São Paulo, no Paraíso, oferece desde janeiro aos seus visitantes nove mapas táteis com a disposição de suas dependências.


Sábado, 11 de abril de 2009

11 de abr. de 2009

Moema tem 124 quadras com prédios proibidos

URBANISMO
Há 4 anos, zoneamento indefinido impede construções na região

Uma indefinição jurídica impede há mais de quatro anos a construção de empreendimentos em 124 quadras do distrito de Moema, na zona sul de São Paulo. No final de 2004, um veto do Executivo às mudanças no zoneamento da região criou um "buraco negro" no uso e ocupação do solo. Uma resolução liminar válida há dois anos determinou para a área um zoneamento misto de baixa densidade, considerado restritivo demais por parte dos moradores e principalmente pelo mercado imobiliário - só é possível construir de uma a duas vezes a área do terreno e são liberados apenas prédios comerciais e de serviços de baixo impacto, como lojas e padarias.

Com as discussões sobre a revisão do Plano Diretor na Câmara Municipal, o futuro do zoneamento de Moema também entrou em debate. Se aprovada a revisão, o governo poderá propor mudanças no zoneamento da cidade. A gestão Gilberto Kassab (DEM) defende um projeto de lei que permite, em dois terços do "buraco negro" de Moema, um zoneamento de alta densidade, menos restritivo. Na área mais residencial, próxima do Parque Ibirapuera, são mantidas as restrições que estão hoje em vigor provisoriamente.

Pela resolução emitida no final de 2007 pela Câmara Técnica de Legislação Urbana (CTLU), subordinada à Secretaria Municipal de Planejamento, bares, padarias e lojas de comércios de baixo impacto podem pedir alvará de funcionamento. Uma decisão judicial também orienta que o zoneamento da região é o que vigorava antes do veto da Prefeitura, ou seja, de baixa densidade em toda a área das 124 quadras.

Com o projeto do governo em trâmite na Câmara, a zona mista de alta densidade, onde poderão ser erguidos novos empreendimentos como prédios residenciais, vai abranger o perímetro formado pelas Avenidas IV Centenário, República do Líbano, Ruas Afonso Brás, Euclides Parente Ramos e Inajaroba. Hoje essa área é de baixa densidade e altamente restritiva. Permanece no projeto como zona residencial de baixa densidade a região formada pela junção das Ruas Canário, Coronel Raul Humaitá Vila Nova, Inhambu, Inajaroba, Euclides Parente Ramos e Afonso Brás.

"Primeiro vamos tentar aprovar a revisão do Plano Diretor. O que está sendo proposto para Moema é o zoneamento definido pelo grupo gestor do Plano Estratégico da Vila Mariana, de 2004. Foi uma decisão dos moradores", afirma José Police Neto (PSDB), líder de governo na Câmara.

Segundo a Secretaria Municipal de Habitação, nenhum empreendedor faz solicitações de projetos na região de Moema porque o mercado imobiliário sabe que o zoneamento da região logo se tornará menos restritivo. "Para as incorporadoras é muito ruim o zoneamento em vigor em Moema. Nenhum empreendedor pode fazer projetos para uma região com boa infraestrutura", afirma Luiz Paulo Pompéia, presidente da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp). "As restrições têm de acabar, esse buraco no zoneamento engessa o mercado em uma região com boa rede de transporte", argumenta João Crestana, diretor do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi).

Na região de Moema, a maioria das pessoas desconhece esse imbróglio da Lei de Zoneamento. A própria presidente da Associação dos Amigos e Moradores de Moema, Lygia Horta, admitiu à reportagem que não está inteirada da situação - demonstrou surpresa, aliás.

Para a urbanista Lucila Lacreta, do movimento Defenda São Paulo, é preciso tomar muito cuidado para conter a "farra do mercado imobiliário". "É necessário fazer um estudo muito sério antes de redefinir o zoneamento dali", defende. "Trata-se de uma área já saturada e o mercado imobiliário quer liberar aquilo a qualquer custo. Não adianta ir com muita sede ao pote."

em parceria com Diego Zanchetta.


Sexta-feira, 10 de abril de 2009

10 de abr. de 2009

A Bela que veio do pop

PAULISTÂNIA
Ex-Rouge, Lissah Martins já foi Miss Saigon e agora estrela novo musical

Lissa Kashiwaba. Patrícia Lissa. Lissah Martins. Cada um desses nomes representa uma fase na carreira da cantora Patricia Lissa Kashiwaba Martins que, aos 25 anos, se prepara para viver a Bela do musical A Bela e A Fera, programado para estrear no dia 29 no Teatro Abril, em São Paulo.

Lissa Kashiwaba nasceu em Rolândia, município de 55 mil habitantes no norte do Paraná, neta de imigrantes japoneses. O nome Lissa - "o que traz felicidade" - foi a maneira que os pais encontraram para registrar seu sentimento quando do nascimento da primeira filha - depois vieram outras duas meninas. "Meu avô materno, japonês, gostaria que minha mãe se casasse com um oriental. Só quando eu nasci passou a aceitar melhor o meu pai", revela.

E foi por influência da avó que ela começou a cantar. "Como ela só falava em japonês, minha mãe me matriculou numa escola do idioma", lembra. "Então comecei a participar de festas nas quais cantava e dançava." Dali para os festivais, comuns na região, foi praticamente automático. Lissa cantou nesses eventos até os 14 anos.

O sucesso infanto-juvenil lhe rendeu dois convites: integrar o coral do colégio católico onde estudava e animar casamentos e festas de aniversário. Há pouco mais de dez anos colocou na cabeça que queria ser artista. "Era a época de Titanic. Eu via a Celine Dion (intérprete da música-tema 'My Heart Will Go On') e achava o máximo. Comecei a conhecer todas as divas."

Aos 17 anos, Lissa achou que era hora de sua carreira começar a acontecer fora do circuito aniversário-casamento. "Queria ir para o Rio ou para São Paulo", diz. "Meus pais disseram que, sozinha, eu não poderia, de jeito nenhum." A família vendeu tudo e se mudou para a capital fluminense. Ela tinha acabado o ensino médio e chegou a se inscrever para o vestibular de Educação Física da Universidade do Estado do Rio (Uerj). "Mas, no dia da prova, apareceu um teste em São Paulo."

A família ainda não tinha nem instalado TV na nova casa, quando um vizinho avisou das inscrições para Popstars, um reality show do SBT. "Pensei que de repente podia ser legal, né? Aí me inscrevi", conta. Gravou duas músicas de Lara Fabian - "uma romantiquinha e outra agitadinha" - e enviou pelo correio, como outras 30 mil pessoas. Foi selecionada e se mudou para São Paulo. A cada fase, o grupo de classificados ficava menor. No fim, restaram Aline Wirley, Fantine Thó, Karin Hils, Luciana Andrade e Lissa, chamada pelo programa de Patrícia Lissa. Os vencedores se transformaram no Rouge, que de 2002 a 2005 emplacou sucessos-chiclete como Ragatanga, Não Dá Pra Resistir e Um Anjo Veio Me Falar - Luciana Andrade saiu da formação em 2004. Fizeram shows em todo o Brasil e turnês por América Latina, Europa e África. Lançaram quatro CDs e venderam milhões.

Na vida pessoal, Patrícia Lissa então experimentou a sonhada liberdade de morar longe dos pais. "Imagina, só: 18 anos, sozinha em São Paulo. Acha que estranhei alguma coisa? Estava achando o máximo: só não ia para a balada quando tinha show." No início, dividiu um flat no Itaim com as meninas. Depois, morou com uma tia na Vila Gumercindo. "A gente já tinha concluído esse ciclo e cada uma estava com vontades diferentes", diz, para explicar o fim do Rouge. "Mas a gente se fala direto, somos amigas."

Com o fim do grupo, ela decidiu voltar a usar o nome Lissa, só que, dessa vez, com um agá - "coloquei para ficar mais bonito" -, e utilizando o sobrenome paterno Martins - "Kashiwaba ninguém consegue falar direito". Seu plano era seguir carreira solo. Fez shows em casas noturnas da Vila Olímpia e preparava um CD. "Aí fiquei sabendo das audições para o Miss Saigon (musical que também esteve em cartaz no Teatro Abril)", afirma. "Acabei passando, sem querer, no susto mesmo." E logo no papel da protagonista, Kim. A montagem foi vista por 300 mil pessoas. "No começo, entrei em pânico", revela. "Pensei que a crítica fosse cair em cima de mim porque eu era cantora pop e não saberia atuar, cantar em musical, essas coisas."

Quando já se preparava para retomar a carreira solo, decidiu participar das audições para A Bela e A Fera. "Fiquei meio insegura por causa do meu perfil. Apesar de achar que não sou tão japonesa assim", comenta. Aprovada, vive desde o dia 2 de março uma rotina rígida de ensaios - oito horas por dia, seis vezes por semana. Tudo para ficar tinindo para a estreia.

E, enquanto tudo vai dando certo na vida profissional, Lissah se prepara para o que virá em 20 de maio. É quando realizará o sonho de se casar, na igreja - "Não vou falar onde é para não encher de fã" -, com o músico Matheus Herriez, com quem vive há um ano e meio em um apartamento em Santana. Ele integrava a boyband Br'Oz, uma versão masculina do Rouge, também extinta. O casamento ocorrerá no meio da temporada de A Bela e A Fera. "Não vamos poder viajar de lua de mel, né? Mas dá para esperar um pouquinho."


Domingo, 5 de abril de 2009

9 de abr. de 2009

O samba que nasceu no meio do mato

CULTURA
Na pequena Quadra (SP), 'sambeiros' e 'cantadores' preservam tradição caipira e viram curta-metragem


Os instrumentos, todos de percussão, são feitos artesanalmente. Os músicos se autodenominam "sambeiros" e "cantadores". O ritmo é marcado pelo batuque de bumbos - que eles chamam de "caixas" -, pandeiros e reco-recos. Os versos, simples e espontâneos, são cantados como toadas. O sotaque é inconfundível - e, à primeira escutada, quase incompreensível para quem é de fora. O orgulho está nas letras: "Esse meu samba caipira/ Que nasceu lá no sertão/ Gravei o samba em DVD/ Não posso deixar morrer/ Nossa velha tradição."

À frente desse resistente grupo está João José Andrade, de 65 anos, mais conhecido como João do Ditão. Ditão era o pai dele, com quem João aprendeu a ser "sambeiro". O pai de Ditão aprendeu com o avô que aprendeu com o bisavô. "Meu bisavô trabalhava em senzala e aprendeu com os escravos", conta.

Em sua turma tocam João Mendes de Góes - "tanto faz escrever com 'e' ou com 'i'", diz ele -, de 71 anos, apelidado de Paçoca; Francisco Soares, o Preto, de 67 anos; Julieta de Andrade Soares, de 66; Francisco Dimas da Silveira, chamado de Chico Pinto, de 56 anos; e José Carlos Soares, também de 56. São Os Filhos da Quadra. "Desde 1964, quando 'comecemo', já 'passou' comigo uns 30, 40 cantadores", lembra João do Ditão, o veterano e professor do grupo.

Eles nasceram e sempre moraram em Quadra, uma pequena cidade de menos de 3 mil habitantes, localizada a cerca de 150 quilômetros da capital paulista. Era distrito de Tatuí - se emancipou em 1993. Integram um dos sete grupos de samba caipira que ainda existem no interior paulista, em cidades como Vinhedo, Mauá e Pirapora do Bom Jesus.

João do Ditão frequentou somente até a 3ª série de um colégio rural. Mas tem uma sabedoria inata, cabocla, matuta, cheia de poesia. "Quem quer aprender verso/ Procure o João do Ditão/ Versão de Samba caipira/ Que é a raiz do meu sertão." Garante que já compôs "mais de mil versos" - um verso, para ele, é uma música toda.

Seu método é assim: primeiramente, escreve num caderninho, depois repassa para Julieta, que é sua irmã, decorar. "Só então ensino a toada para ela", explica. Tudo muito simples. "Não gostamos de nada 'luxento'", frisa Julieta.

Durante a visita ao grupo, a reportagem do Estado foi brindada com uma homenagem, ao estilo repentista: "Pra ouvir samba caipira/ Vem gente da capital/ Pra mim vem fazer visita/ O repórter da imprensa escrita / Pra pôr o samba no jornal."

Além de compor músicas para o grupo, João também escreve poemas. Não gosta de mostrá-los. "Troco as letras", se justifica. Talvez ele não faça ideia de que, em seu caso, substituir "ss" por "ç" e colocar um "z" onde caberia um "s" não têm o menor problema.

É o próprio João, carpinteiro de ofício, quem constrói os instrumentos. Tem um pandeiro, de couro de bode, que foi feito há 60 anos por seu pai, o Ditão. "Os (instrumentos) que vêm de fábrica saem fora do padrão", acredita. Essa originalidade corria risco de extinção, já que os jovens de Quadra não se interessavam muito pelo estilo. "Eles preferem coisas mais doidas", afirma Preto.

O FILME
Foi quando o funcionário público Marcel Defensor Dias, do Departamento de Agricultura da prefeitura de Quadra, entrou na história. Ao saber que o cineasta Gustavo Mello havia feito uma série sobre samba de São Paulo, para a TV Cultura, decidiu ligar para ele. Contou sobre os "sambeiros" quadrenses. "Quadrados", corrige João, aos risos.

"Fui para lá com um antropólogo por três vezes, em 2007", lembra o cineasta. "Ficamos impressionados. Era uma coisa diferente dos demais grupos que conhecíamos." Ele bolou um documentário, inscreveu o roteiro no Prêmio Estímulo de Curta Metragem e conseguiu o financiamento de R$ 80 mil para rodá-lo, no ano passado.

Nos quatro primeiros meses de 2008, Mello e sua equipe - o filme é codirigido por Luiz Ferraz - passavam uma semana a cada 30 dias na cidade. "No começo, não conseguíamos nem entender o sotaque", admite o cineasta. "E eles eram bastante tímidos." Depois desse processo, todos ficaram mais à vontade para a gravação, ocorrida durante cinco dias no final de maio.

O filme Samba de Quadra - O Samba Que Veio do Mato estreou no Festival É Tudo Verdade - no Rio, dia 29 de março, e em São Paulo, no dia 2. As próximas exibições na capital paulista estão previstas para hoje, às 17h, no Centro Cultural Banco do Brasil; e dia 16, às 12h, na Casa das Rosas. Na primeira sessão paulistana, no dia 2, os "sambeiros" vieram em caravana ao CineSesc. "Só assistimos ao filme e 'vortemo' embora", afirma João. "São Paulo é muito grande, a gente se perde e periga ficar."

NÃO DEIXE O SAMBA MORRER
O facho de luz que o cinema lançou sobre a música típica de Quadra tem funcionado como uma garantia de que o estilo não vai mais desaparecer. "Meus netos não se interessavam, mas agora estão aprendendo", diz Julieta. É verdade. Sabrina, de 12 anos, já canta com a avó - embora ainda não consiga disfarçar a timidez. Gabriel, aos 8, leva jeito no reco-reco. Simbolizam a esperança de que a tradição centenária, cuja origem ninguém explica ao certo, não está condenada à extinção.


Domingo, 5 de abril de 2009

8 de abr. de 2009

Shoppings cumprem lei, mas não fiscalizam

ACESSIBILIDADE
MPE pretende assinar termos de ajustamento de conduta neste mês

Dentre os espaços privados, os shoppings são os campeões de reclamações de desrespeito às vagas de estacionamento exclusivas para pessoas com deficiência. Praticamente todos na cidade de São Paulo seguem a legislação e destinam pelo menos 2% do total de vagas para esse público. No entanto, não há fiscalização interna desses espaços. Para evitar conflitos com os clientes, muitos simplesmente não reprimem quem ocupa indevidamente as vagas.

Na tentativa de acabar com o problema, o Ministério Público Estadual (MPE) vai assinar no próximo mês termos de ajustamento de conduta (TAC) com alguns centros de compras da capital. Um dos principais pontos do acordo diz que esses lugares terão de manter metade das vagas de estacionamento para pessoas com deficiência cercadas com correntes, sendo permitido o acesso somente para carros com a identificação apropriada. Além disso, haverá campanhas para orientação dos clientes, com avisos sonoros.

De acordo com o promotor Júlio Botelho, do Grupo de Proteção à Pessoa Portadora de Deficiência do MPE, aproximadamente 70% dos shoppings indicaram que vão assinar o acordo, que prevê multa em caso de descumprimento. “E nós vamos ingressar com Ação Civil Pública contra os demais que não aderirem ao acordo e não se adequarem”, diz Botelho.

A reportagem do Estado passou 1 hora, na tarde do dia 25, acompanhando o entra e sai das vagas especiais de um dos setores do Center Norte. Dos 14 carros estacionados, apenas dois tinham o adesivo de deficiente físico no para-brisa. “Não podemos arrumar encrenca com o cliente”, disse um vigilante, que pediu para não ser identificado. O Center Norte destacou, em nota, que conta “com o bom senso dos frequentadores”. “Os seguranças abordam a pessoa que parou o carro no local indevido. Os vigilantes pedem, com gentileza, que a pessoa retire seu carro. Entretanto, o shopping não tem autonomia para multar ou retirar o veículo do infrator”, diz a nota.

Outros shoppings procurados pela reportagem deram respostas semelhantes. No Eldorado, os seguranças colocam um adesivo no vidro do carro, identificando que aquela vaga é reservada a deficientes. O Shopping Metrô Santa Cruz garante que “ainda não houve registro de cliente não portador de deficiência que tenha se recusado a retirar o veículo de uma vaga reservada”. O MorumbiShopping frisa que disponibiliza serviço de manobrista sem custo adicional aos frequentadores com mobilidade reduzida.

Os Shoppings Iguatemi e Market Place lembraram que “cabe ao poder público fiscalizar o cumprimento da lei”. Eles também deixam no veículo infrator um aviso informativo.

em parceria com Renato Machado.


Quinta-feira, 2 de abril de 2009