7 de out. de 2009

O humor político dos Parlapatões

CULTURA

O bar que funciona junto ao Espaço Parlapatões tem um caráter político. Quem afirma isso é o próprio palhaço, ator e dramaturgo Hugo Possolo, fundador da trupe que comanda a casa. E isso não é piada.

Frequentado por artistas de todo o tipo e muita gente que gosta de artes em geral, o bar é um dos tantos pontos de encontro da Praça Roosevelt, que nos últimos anos se transformou em cenário para acalorados debates informais acerca do "fazer cultura" em São Paulo.

Mas não é só isso. O ativismo político dos Parlapatões também está presente em suas peças, sempre provocativas. A comédia O Papa e a Bruxa - texto do italiano Dario Fo -, atualmente em cartaz, trata de temas polêmicos para a Igreja, como as drogas, o aborto, a Aids e o celibato.

Outra peça recente que experimentou grande sucesso - e está prevista para voltar à programação no ano que vem, em versão remodelada - foi O Pior de São Paulo. Os Parlapatões prepararam um verdadeiro city-tour pela cidade - os espectadores embarcavam em um ônibus - com esquetes cômicos em cada uma das paradas. "Quando anunciamos a peça, as pessoas imaginavam que iríamos mostrar a pobreza e a sujeira da cidade", lembra Hugo. "Mas São Paulo tem coisa muito pior: por isso escolhemos locais como a Daslu e o Fasano."


Domingo, 23 de agosto de 2009

6 de out. de 2009

No teatro de rua, ex-parlapatão retoma origem

Um dos fundadores dos Parlapatões, o ator Alexandre Roit se desligou do grupo no início de 2002. "Nossas ambições estavam divergindo demais e as relações pessoais começaram a se desgastar", conta. De lá para cá, atuou em diversas montagens de outras companhias e voltou às origens: o teatro de rua. Com seu espetáculo Pelada na Rua tem excursionado por todo o Brasil - "porque nem só do eixo Rio-São Paulo vive o homem", alardeia - e por outros países latino-americanos, como México, Colômbia, Argentina e Venezuela. "É esse teatro que fazíamos no início dos anos 90", diz. "Quando saí, os Parlapatões estavam ganhando um formalismo e perdendo a espontaneidade." Do núcleo original, outros dois atores não integram mais a trupe: Jairo Mattos - que, além de teatro, dedica-se a telenovelas - e Artur Leopoldo e Silva.

Domingo, 23 de agosto de 2009

5 de out. de 2009

Humor maior de 18 anos

PAULISTÂNIA
Da rua para um movimentado espaço próprio, Parlapatões celebram a maturidade

Para um palhaço, a maturidade não se traduz em cara séria. E é por isso que, antes mesmo de começar a entrevista com Hugo Possolo, de 47 anos, e Raul Barretto, de 50 - os dois mais antigos Parlapatões em atividade -, o repórter ouve o primeiro comentário engraçadinho. "Grava isso, porque mentira gravada é sempre melhor, né?", provoca Hugo. Para um palhaço, risos valem mais do que palmas.

Hoje, os Parlapatões, Patifes e Paspalhões são uma bem-sucedida empresa. A companhia emprega 40 pessoas - entre elenco, produção e administração -, desde 2006 mantém um espaço próprio na Praça Roosevelt - cuja aquisição deve ser completamente quitada dentro de dois anos - e é sócia do Circo Roda Brasil. Com 33 peças no currículo, o grupo teatral comemora a maturidade profissional fazendo uma reflexão, sem perder o deboche, de sua trajetória. "Essa história de 18 anos é marketing para vocês falarem da gente", ri Hugo. "Mas é claro que, com o tempo, vieram as conquistas, que são muito fortes, o que nos deixa triplamente mais responsáveis. Afinal, hoje, precisamos pensar como empresários, pensar que há pessoas empregadas aqui, que dependem disso para sobreviver. Pessoas dedicando sua vida a um projeto completamente abstrato e efêmero: o teatro."

Nem sempre foi assim. A ligação da trupe com São Paulo é telúrica, pé no chão, sapato no asfalto. No começo da carreira, nada de cortinas, palco ou bilheteria. "O grupo nasceu na Praça da República e no Parque do Ibirapuera, com apresentações de rua", lembra. "Depois a gente passava o chapéu." No início, Raul fazia participações especiais. Foi incorporado definitivamente à companhia, da qual faziam parte outros integrantes, em seguida.

Ambos são paulistanos. Paulistaníssimos. "Sou fissurado pela cidade. Tanto que acredito que a linha pontilhada na qual o mundo gira se chama Avenida Paulista", afirma Hugo que, na verdade, nasceu em Vitória (ES). "Mas vim para cá com menos de 1 ano. Sou mais paulistano que muito paulistano." Raul é filho legítimo da cidade. "Nasci na própria Avenida Paulista", frisa.

De personalidades distintas, os dois percorreram caminhos diferentes até se conhecerem, no Picadeiro Circo Escola, nos anos 80. Hugo era um menino quieto, bom aluno, tímido até. Queria ser dramaturgo. "Então, na adolescência, comecei a fazer teatro para me aproximar dessa gente. Tanto falaram que eu era engraçado que resolvi estudar para ser palhaço", conta. "Mas, fora de cena, Deus me livre, até hoje acho que sou muito sério - se bem que ando mais avacalhadinho." Paralelamente às aulas teatrais, se formou em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 1981.
Mais extrovertido, Raul era do tipo que aprontava todas em casa e na escola. "Sempre fui do fundão, aquele sujeito com carinha de bonzinho que sacaneava todo mundo", define. "O palhaço é um sacana, né? Na sala de aula, eu atrapalhava e provocava as pessoas. Hoje continuo fazendo isso no teatro." Começou a fazer cursos de teatro quando estava no 3º ano de Engenharia Civil, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Graduou-se em 1982. "No dia da formatura, saí de smoking do (centro de convenções) Anhembi e fui direto para o Sesc Pompeia. Era minha estreia no teatro", lembra. "Cheguei a exercer (a profissão de engenheiro). Trabalhei em um escritório grande. Todo dia, durante meio período, eu fiscalizava obras, media vão de janelinha um por um, via a cubagem de caminhão de pedra, caminhão de areia... Depois ia para o teatro."

De certo modo, a formação "exata" até hoje transparece nele. "É o nosso 'Parlapadata'", brinca Hugo. "Sim, guardo os números, estatísticas, informações do grupo, fluxo de público", confirma Raul. E, como que para provar, diz que, por mês, o Espaço Parlapatões recebe cerca de 3,5 mil pessoas - em média, seis peças ficam simultaneamente em cartaz; o teatro tem capacidade para cem pessoas por espetáculo.

Como não podia deixar de ser, esse jeitão rende piadas à dupla. Um exemplo é a conhecida história - repetida sempre aos amigos - de que eles jamais viajam em férias juntos. "Tem de ser, pelo menos, em Estados diferentes. O ideal é que sejam em continentes diferentes", alfineta Hugo. "Uma vez estávamos em Florianópolis (SC) com um espetáculo. Houve um dia de folga e conhecemos 25 praias de lá. Em duas horas e meia", lembra Raul. "Dia de folga com o Raul é um stress", rebate Hugo. "O maior tempo que consegui ficar em uma praia foram seis minutos. Isso porque o carro atolou e a gente teve de empurrar." Viagens, aliás, são constantes na carreira dos Parlapatões. No total, o grupo passa de dois a três meses por ano fora da capital. Na última sexta-feira, por exemplo, se apresentaram, como convidados de honra, do II Festival de Teatro Infantil de Salto, no interior do Estado.

BAR CHEIO, CASA CHEIA
Metáfora da filosofia do grupo, o bar que funciona no mesmo endereço que o teatro costuma ficar bastante movimentado. "Às vezes, querem nos classificar de 'botequeiros' mas isso é um equívoco", garante Hugo. "O bar é ação política. Só fica cheio quando a peça é um sucesso. E ele só é vivo porque as pessoas vêm aqui para discutir arte, se encontrar com a arte." De acordo com ele, hoje o bar responde por cerca de 30% do faturamento do espaço. O restante é resultado do teatro. Mas a sacada é a interação com o público, antes, durante e depois das peças. "O artista é diálogo", justifica. "Teatro não pode ser visto como cultura de massa, como a televisão, onde o artista é inatingível."

Televisão, aliás, é algo que não atrai a dupla. "Conseguimos criar uma estrutura de tal forma que, se o cara oferece muito pouco por uma novela, podemos falar: ?não, eu ganho mais com o teatro?", diz Hugo, lembrando que foram 18 anos de trabalho para alcançar essa estabilidade. "Já recebi convite para atuar em novela, mas é uma coisa muito chata, né?", conta Raul, que chegou a fazer trabalhos para a TV Cultura "por puro prazer". "A Rede Globo odeia teatro, então não há espaço para impor nossa agenda e conseguir conciliar. Só uma Maria Fernanda Cândido ou um (Antônio) Fagundes é que conseguem."

Tanto um quanto outro são bem caseiros em se tratando de tempo livre. Raul é fanático por cinema, mas admite que, ultimamente, tem preferido curtir as folgas em sua casa, na Pompeia - onde vive com a mulher, a atriz Helena Cerello. "Fico tanto tempo fora que, quando estou livre, tenho quinhentas coisas para fazer em casa", diz. "É prateleira para grudar, jardim para arrumar..." Casado há 17 anos - sua mulher, Márcia Chiochetti, administra o bar do teatro -, Hugo também se refugia em casa, na Vila Maria, quando quer sossego. "Afinal, um grande sofá é a cara de São Paulo", compara.


Domingo, 23 de agosto de 2009

4 de out. de 2009

SP celebra Beirute, a ''capital mundial do livro''

CULTURA
Exposição e palestras no Sesc Vila Mariana têm a capital libanesa no centro das atenções

Beirute, a capital do Líbano, foi escolhida pela Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - como a capital mundial do livro em 2009. Para celebrar o fato, a comunidade libanesa brasileira - maior colônia daquele país, com 7 milhões de descendentes, 3 milhões deles no Estado de São Paulo, sendo 1,5 milhão na capital - prepara uma série de eventos, abertos ao público, com início programado para hoje à noite.

O título de "capital mundial do livro" é conferido pela Unesco desde 2001. De acordo com o comunicado divulgado pela entidade em julho de 2008, Beirute foi escolhida "por sua implicação em matéria de diversidade cultural, de diálogo e de tolerância, assim como pela variedade e o caráter dinâmico de seu programa". "Culturalmente, é um título importante. Por isso queremos celebrá-lo", afirma Lody Brais, presidente da Associação Cultural Brasil-Líbano e coordenadora dos eventos.

Na noite de hoje, será aberta, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, Vila Mariana), a exposição Olhar o Líbano, com 76 imagens captadas pelo fotógrafo paulista Cristiano Mascaro em viagem ao país há cinco anos. Em um carro alugado, o fotógrafo percorreu boa parte do Líbano ao longo de 12 dias, registrando diversas cenas. A exposição, que fica em cartaz até 20 de setembro, retrata as transformações vividas pela nação. Há fotos que mostram ruínas e castelos medievais e imagens nas quais transparece a modernidade da capital, com seu efervescente comércio.

Também no Sesc Vila Mariana, duas palestras sobre o Líbano estão planejadas para os próximos dias. Em 2 de setembro, às 20h30, o professor de Literatura Árabe Paulo Daniel Farah e o geógrafo Aziz Ab'Saber dividem a mesa intitulada Do Líbano ao Brasil. E no dia 10, às 20h30, o escritor Salim Miguel falará sobre as Influências das Raízes Ancestrais na Literatura, com mediação do professor de Literatura Árabe Mamede Jarouche.

A comunidade libanesa no Brasil foi homenageada com duas outras manifestações em alusão ao título recebido por Beirute. Recentemente, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos lançou um selo dedicado ao tema, cuja estampa focalizou o escritor e pintor libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931). A Caixa Econômica Federal, por sua vez, emitiu um bilhete da loteria federal com estampa em homenagem a Beirute.


Sexta-feira, 21 de agosto de 2009

3 de out. de 2009

Arquiteto de SP lança livro sobre suas obras

URBANISMO
Profissional prestigiado, Carlos Bratke selecionou criações premiadas para publicação

Com quatro décadas de carreira e cerca de 300 obras no currículo, o arquiteto paulistano Carlos Bratke está colecionando alvíssaras neste ano. Há menos de um mês, uma de suas obras, o Edifício Oswaldo Bratke - onde fica a sede de seu escritório, na Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini -, foi selecionada pelo Conselho Curador do museu francês Georges Pompidou para compor seu acervo permanente. Outra criação de sua prancheta, o Edifício Brigadeiro 1, foi recentemente contemplada com o Grande Prêmio Especial da Editora Flex, desbancando 960 concorrentes. E hoje, às 19 horas, será lançado, na unidade Jardins da Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1.731; 3062-1063), o livro Carlos Bratke - Arquitetura (Editora J. J. Carol, 130 páginas, R$ 59), uma espécie de portfólio, com detalhes de oito projetos executados e um em fase de construção, no Estado de São Paulo.

"Selecionei (para o livro, que é o quarto com suas criações) algumas obras que elejo como marcantes. São projetos que já foram premiados ou publicados", explica Bratke. "Não quis que parecesse um livro biográfico, então escolhi obras que, além de eu gostar, apontam um caminho. Do ponto de vista da composição, todas têm uma coerência no tratamento do espaço." No caso de Bratke, espaço não necessariamente construído. É constante em sua carreira a fascinação pelos vazios, pelas sobras. Predileção talvez originada da grande admiração que o arquiteto nutre pela modernista Lina Bo Bardi (1914-1992). "Veja o Masp (Museu de Arte de São Paulo, uma das criações de Lina): sua poética está no vão livre. Esse tipo de composição é uma questão artística."

Filho do também arquiteto Oswaldo Bratke (1907-1997), o paulistano Carlos nasceu em 1942. Vinte e cinco anos depois, graduou-se em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie. De lá para cá, dividiu-se entre criações de projetos, atividades docentes - lecionou no Mackenzie e na Belas Artes - e publicações. São de sua lavra cerca de 60 edifícios da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, a Igreja São Pedro e São Paulo - nas bordas do Parque Alfredo Volpi - e o Parque do Povo. Também assinou projetos de várias escolas públicas e particulares, centros culturais, indústrias, shopping centers, hotéis e residências.

Sua consistente carreira rendeu convites para projetar no Uruguai, Israel, México e Estados Unidos. "Durante a construção, ficou minha placa lá na Quinta Avenida de Nova York", diz, com indisfarçável orgulho, quando se recorda da sede de uma joalheria de luxo que concebeu, em 1999. Mas não vira as costas para o início da carreira, no fim dos anos 60. "As primeiras obras são as mais importantes, porque são didáticas."

É com bom humor que o arquiteto relembra as dificuldades da construção, nos anos 80, do Edifício Oswaldo Bratke, recentemente incorporado ao Georges Pompidou. "Eu planejei muitas lajes desencontradas, de modo que era difícil para o mestre de obras entender aquilo", conta. "Fiz uma maquete de madeira maciça, com 1,6 metro de altura, e deixei na obra para que ele consultasse sempre que tivesse alguma dúvida." Como agradável lembrança, a maquete ficava em seu escritório. Não mais. Agora está no museu francês.


Quinta-feira, 13 de agosto de 2009

2 de out. de 2009

A fina arte nos salões do poder

CULTURA
Governo, Prefeitura, Câmara e Assembleia têm em suas sedes acervos dignos dos melhores museus

Os austeros prédios dos poderes guardam mais que burocracia. Em corredores imponentes e espaçosas salas com grande pé-direito, obras de arte assinadas por célebres pintores e escultores brasileiros embelezam o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo, o Palácio Nove de Julho, onde fica a Assembleia Legislativa, o Edifício Matarazzo, endereço da Prefeitura, e o Palácio Anchieta, onde funciona a Câmara Municipal.

O mais vistoso desses acervos, sem dúvida, é o do governo estadual. "Trata-se de uma coleção de 4 mil peças, extremamente importante dos pontos de vista histórico e artístico", explica a economista e historiadora da Arte Ana Cristina Carvalho, curadora do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. Os itens ficam distribuídos nas três residências oficiais do governo: o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, em São Paulo; o Palácio do Horto, no Horto Florestal, também na capital; e o Palácio da Boa Vista, em Campos do Jordão. "Nossas obras priorizam o percurso do Modernismo brasileiro, constituindo um acervo cobiçado por muitos museus." Entre as peças, há nove pinturas de Tarsila do Amaral, como Retrato de Mário de Andrade, óleo sobre tela de 1922, e Operários, de 1933.

Embora nem todos saibam, é possível conhecer, in loco, parte dessa coleção. Diariamente, das 10 às 17 horas, 12 educadores ficam à disposição para mostrar algumas preciosidades aos visitantes do Palácio dos Bandeirantes. "Por meio das obras de arte, conseguimos contextualizar um pouco a história de São Paulo", afirma Isaura Maria Bonavita, diretora técnica do Centro de Monitoria do Palácio.

No hall nobre, 14 peças permanentes formam oito painéis, assinados por Clóvis Graciano, Candido Portinari, Djanira Motta e Silva, Tomie Ohtake, Alfredo Volpi, Aldemir Martins e Antonio Henrique do Amaral. Este último é o autor de São Paulo, Brasil - Criação, Expansão e Desenvolvimento, um acrílico sobre tela de 16 metros de largura por 4,5 m de altura. "Em 1989 houve um concurso para escolher a obra que ficaria aqui", conta Isaura. "Ele (Amaral) ganhou e levou nove meses para concluir o trabalho."

Integrar o seleto acervo do Palácio dos Bandeirantes não é tarefa simples para os artistas. Todos os anos, a curadoria de lá recebe de 40 a 50 propostas de doações de obras. "Aceitamos, em média, dez", conta Ana Cristina. Há uma explicação para tal cuidado. "Cada item adquirido representa um gasto de manutenção, afinal temos um compromisso patrimonial." As propostas de doações são submetidas ao crivo de um conselho, que analisa a obra e a biografia do artista. "Ao contrário de outros acervos do poder, bastante decorativos, aqui nos preocupamos com o caráter museológico e o valor artístico", frisa a curadora. "Nossa coleção foi, ao longo dos anos, sendo formada com o aval de especialistas. Não incorporamos peças ao léu ou por apadrinhamento."

OUTRAS COLEÇÕES
No Palácio Anchieta, no centro, sede da Câmara Municipal, estão outras preciosidades artísticas. Há 26 obras no catálogo, entre elas Retrato de Fábio da Silva Prado, de Cândido Portinari; Retrato de Manuel Deodoro da Fonseca, de Benedito Calixto; duas telas intituladas Fundação da Cidade, de Clovis Graciano; e cinco painéis conjugados de Aldemir Martins. Não existe um programa de visitação, como o que funciona no Palácio dos Bandeirantes.

Há três anos, cinco restauradores transformaram uma sala da Câmara em ateliê. Ali, ao longo de meses, dedicaram-se a deixar tinindo os quadros que se encontravam degradadas pelo tempo. "Hoje temos muito amor por essas obras", afirma José Carlos Teixeira de Camargo Filho, coordenador do Centro de Comunicação da Câmara, área incumbida da manutenção do acervo.

A Assembleia Legislativa mantém, desde 2002, o Museu de Arte do Parlamento de São Paulo. "São cerca de 1,3 mil itens", diz o curador, Emanuel von Lauenstein Massarani. "A proposta do acervo é humanizar a instituição, propiciando aos funcionários um ambiente melhor e, aos visitantes, uma atração cultural." A coleção está distribuída entre os vários ambientes do Palácio 9 de Julho, perto do Parque do Ibirapuera.

Um ano depois da criação do Museu de Arte, foi fundado o Museu da Escultura ao Ar Livre, nos jardins do palácio, hoje com 73 peças - de mármore, bronze, terracota, chapas de ferro, alumínio e cerâmica.

Já as obras expostas no Edifício Matarazzo, no centro, sede da Prefeitura, não compõem um acervo do próprio prédio. Fazem parte da Coleção de Artes da Cidade de São Paulo - atualmente com 2,8 mil peças -, mantida em reserva técnica do Centro Cultural São Paulo, no Paraíso, zona sul. Além de serem expostas esporadicamente, costumam ser cedidas para decorar órgãos públicos. Atualmente, nove obras estão no gabinete do prefeito Gilberto Kassab. De tempos em tempos, elas são trocadas.

Segunda-feira, 10 de agosto de 2009

1 de out. de 2009

O passado e o futuro em só 2 mãos

CULTURA
Funcionária preserva único dos três museus de Mococa ainda aberto

A história de Mococa, embora rica – foi importante trincheira de tropas revolucionárias, em 1932 –, vem sendo deixada de lado. Dos três museus da cidade, dois não funcionam e outro, o Histórico e Pedagógico Marquês de Três Rios, em processo de municipalização, sobrevive pelos esforços de uma funcionária. Construído no fim do século 19, o casarão histórico onde funciona a instituição está infestado de cupins, as paredes têm rachaduras e, nos dois andares, não há extintores de incêndio.

“Apesar do fogo, que consumiu o térreo do prédio, em 1992, há ainda todas essas falhas”, conta a professora Eliana Galvani, que cuida do museu desde 1994. A preocupação é com o acervo – cerca de 5 mil peças, grande parte uniformes e armas da Revolução. “Parece que não aprendemos com os problemas pelos quais passamos antes.”

Na cidade, há também o Museu de Artes Plásticas, fundado com empurrãozinho de Assis Chateaubriand. Com doações expressivas do mecenas, o acervo com mais de 400 obras – entre elas, uma gravura de Tarsila do Amaral – está trancado há dois anos na Câmara. “Estamos procurando um novo espaço”, diz o diretor do Departamento de Cultura, Antônio Ventura. “Mas não há verba.” O Museu de Arte Sacra está fechado desde 2005, por problemas judiciais com a paróquia local.

Mococa não tem dotação orçamentária para museus. “É preciso entender que municípios pequenos têm prioridades mais urgentes”, diz Ventura. “O Estado está lavando suas mãos. Nunca ajudou esses museus do interior e agora sai de cena como mocinho.”

Em Casa Branca, o descaso é evidente no Museu Afonso e Alfredo de Taunay. A instituição, um das primeiras instaladas em São Paulo, em 1958, funciona numa sala de um prédio municipal. No local, há documentos de quase 200 anos, que revelam a origem de Ribeirão Preto, São José do Rio Pardo e Caconde. “Ficam armazenados num quartinho de 20 m². Aqui, tem gente que chama de almoxarifado municipal”, diz Adolpho Legnaro Filho, o único funcionário.

Em Pirassununga, o Museu Dr. Fernando Costa está fechado desde 2005, “montadinho”, como diz o secretário municipal de Cultura e Turismo, Roberto Bragagnollo. Em 2002, o espaço, no entanto, foi cedido para a festa de peão. “Usaram o museu como sede administrativa e alojamento”, conta o secretário. “O resultado foi que rasgaram fotos e levaram uma pá de prata que pertencia ao acervo.” Depois de comprovado o sumiço, foi aberta uma sindicância. Enquanto nada se resolve, o museu fica fechado.

em parceria com Vitor Hugo Brandalise.


Domingo, 9 de agosto de 2009