7 de nov. de 2009

Premiadíssimo, consagrado - e quase inacessível

ESPECIAL
Mendes da Rocha projeta sem computador, trabalha sozinho e mantém a mesma rotina há décadas

Paulo Mendes da Rocha. Dizer que ele ganhou dois dos mais importantes prêmios da área - o Mies van der Rohe (em 2001) e o Pritzker (em 2006) - dá dimensão de como esse capixaba radicado em São Paulo é um mito da arquitetura brasileira. Aos 81 anos, repete sua rotina de criação solitária, num amplo e rústico escritório no prédio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), projetado por Rino Levi (1901- 1965) no centro de São Paulo. Ali é seu endereço desde os anos 70, no mesmo andar que foi ocupado por Vilanova Artigas (1915-1985).

Na mesa, nada de computador. Seus projetos vão da lapiseira bege direto para a prancheta. Na parede, desenhos e garatujas de um dos netos são a única decoração. Mapas, plantas e livros, muitos livros, espalham-se pelas estantes metálicas. Como consegue projetar assim, em pleno século 21, sem modernos softwares, sem equipe afiada? Aos amigos, costuma dizer que arrumou um jeito de "institucionalizar sua vagabundagem". Na verdade, trabalha com escritórios associados - em geral, de ex-alunos.

Cinco por cento dos que responderam à enquete do Estado afirmaram ser este o melhor escritório de arquitetura da cidade. A atmosfera do estúdio de Mendes da Rocha não tem frescura. Largadão e despreocupado, o local não reflete a precisão e a minúcia que fizeram dele um dos mais importantes arquitetos contemporâneos do mundo.

Formado em 1954 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, chamou a atenção já em seu primeiro grande projeto, o Ginásio do Club Athlético Paulistano (de 1957), onde utilizou concreto armado aparente e grandes espaços abertos. Uma obra modelo da que acabou conhecida como Escola Paulista de Arquitetura - crua e limpa.

Nos anos 60, iniciou sua trajetória acadêmica, tornando-se professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Defensor do papel social do arquiteto, desagradou ao governo militar e teve seus direitos políticos cassados em 1969 - nunca fez política partidária mas chegou a frequentar reuniões do Partido Comunista -, sendo afastado da universidade. Retornou à docência em 1980, já no processo de redemocratização do País.

Sua carreira é cheia de obras importantes. São de sua lavra o Estádio Serra Dourada, em Goiânia (de 1973); o Museu Brasileiro da Escultura (de 1986); a reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo (de 1988 a 1999); o Museu da Língua Portuguesa (de 2006)... Em 2002, viu-se numa polêmica: a cobertura sobre a Galeria Prestes Maia, na Praça do Patriarca, movimentou caloroso debate - e até hoje provoca a ira dos contrários à sua realização. Desde o ano passado, trabalha nas novas instalações do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. Na última Bienal Internacional de Arquitetura, em 2007, foi homenageado ao lado de Niemeyer.

Houve cinco tentativas de agendar entrevista com Paulo Mendes da Rocha. Três telefonemas e dois e-mails - jamais respondidos. Por telefone, sua secretária afirmou que ele não tinha interesse em participar.


Quinta-feira, 29 de outubro de 2009

6 de nov. de 2009

Causas que vão além da prancheta

ESPECIAL
Do Cine Belas Artes a um projeto que atende crianças carentes, o trabalho de Loeb ultrapassa seus traços

Dois flashes se destacam nas memórias afetivas do arquiteto Roberto Loeb, de 68 anos - apontado por 5% dos ouvidos pelo Estado como dono do melhor escritório de São Paulo. No primeiro, ele é criança e brinca nos arredores da casa da família. "A região do Pacaembu era um fascínio, porque tinha muitos terrenos vazios, muito mato e muita construção em andamento", recorda-se. "Roubava material das obras e fazia minhas cabanas, brincava com blocos, essas coisas." Na segunda cena, bem mais recente, Loeb já é um consagrado arquiteto e participa da inauguração do Centro da Cultura Judaica, em 2003, no Sumaré. "Foi um privilégio poder fazê-lo, porque pude homenagear meus avós (maternos), de origem judaica. Por isso nem quis cobrar pelo projeto."

E é assim, com voz calma, que Loeb desfia suas reminiscências ao reconstituir sua trajetória de vida. O menino que gostava de desenhar e admirava as criações do pai - um imigrante húngaro formado em Belas Artes que se tornou joalheiro - estudou Arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie e, logo no primeiro estágio, foi trabalhar com o renomado Rino Levi (1901-1965). "Por circunstâncias de sorte", admite. "Minha mãe era prima da secretária dele, que me indicou."

Ainda estagiou em outros escritórios antes de ter o seu próprio, em sociedade com dois colegas, no início dos anos 60. Como primeiro trabalho, encararam a reforma de uma fábrica no Ipiranga. Mas o filão mesmo dessa fase foram as feiras comerciais: acabaram se especializando em estandes para os expositores. "O trabalho era aparentemente menor, mas apareceu como oportunidade", diz. Em paralelo, fazia bicos. "Lembro-me que acompanhava, todas as manhãs, uma obra em Santo André. Ia com meu fusquinha por uma estrada de terra."

A partir de 1965, durante quatro anos, dividiu-se entre o escritório e o serviço público. Por meio de concurso, tornou-se arquiteto do Estado. "Adquiri uma visão urbanística muito boa. Discutíamos a formação da região metropolitana de São Paulo e visitei pequenos municípios paulistas, preocupado com a paisagem urbana", afirma.

Enquanto isso, em seu escritório, a equipe continuava com os estandes. Chegaram a fazer mais de 40 feiras internacionais. "Em 1971, ganhamos um concurso para projetar a sede do Unibanco, na Raposo Tavares", relembra. Foi quando se decidiu separar a sociedade. "Meus colegas queriam continuar com as feiras. Mas eu tinha uma vontade muito grande de trabalhar com construções."

SÃO VITO E CELSO GARCIA
Em 1972, portanto, nascia o atual escritório de Roberto Loeb, que hoje emprega 15 arquitetos em uma casa nos Jardins. No total, ele estima que já tenha feito 120 obras - entre elas, o já citado Centro de Cultura Judaica; o Itaú Cultural, na Avenida Paulista; o Parque Hopi Hari, em Vinhedo; e a fábrica da Natura, em Cajamar. "A gente constrói para as pessoas, para que elas se satisfaçam com o espaço", resume. "Uma fábrica não é só uma fábrica. Dentro dela haverá convívio humano, isso é o que importa."

Doze anos atrás, iniciou um trabalho social no Grajaú. O Projeto Anchieta, construído em um terreno de 270 mil m², atende 800 crianças das redondezas. "Começou com um sonho", conta. "Hoje sou o presidente da entidade."

E são esses sonhos que parecem movê-lo. Há oito anos, quando o tradicional Cine Belas Artes, na Rua da Consolação, se via ameaçado de ser transformado em igreja evangélica, Loeb arregaçou as mangas. "Era um patrimônio cultural da cidade e não podia fechar assim. Partimos para a briga: mandei pintar faixas de protesto e fiz um projeto de reforma do cinema", narra.

Outra causa com a qual se envolveu é a do Edifício São Vito, símbolo da degradação do centro. "Fica nesse derruba-não-derruba, e fiz um projeto de reforma. Em um país com tanta marginalização social, é irresponsabilidade derrubar um patrimônio construído", defende. Pela sua proposta, o prédio ganharia creche na cobertura e escola de formação profissionalizante no térreo. E a fachada, assinada pelo artista plástico Eduardo Sued, se transformaria em uma "escultura urbana".

Convidado a apresentar uma ideia ao Estado, ele revisitou um estudo desenvolvido por seu escritório, que propunha a reformulação da Avenida Celso Garcia, na zona leste. "Reconheci o território, pois precisava saber quem morava ali. Não podemos pensar em uma avenida e se esquecer das pessoas que vivem em seus arredores", comenta. "Não concordo com a medida higienista que retira os ambulantes do Largo da Concórdia. Eu construiria uma plataforma inclinada de forma que, por baixo, houvesse garagens e serviços públicos e, em cima, manteria essa coisa típica do comércio ambulante, tão importante."


Quinta-feira, 29 de outubro de 2009

5 de nov. de 2009

O bicho curioso da arquitetura

ESPECIAL
Música, discos-voadores, cachaça, torresmos e cinema fazem a cabeça do eclético (e badalado) Weinfeld

Mais difícil que definir a arquitetura de Isay Weinfeld é definir o próprio arquiteto Isay Weinfeld. Mas, se um dia você se atrever a fazer isso, por favor, que seja longe dos ouvidos dele. Porque qualquer tentativa de rotulá-lo seria prontamente desqualificada. "Acho que as pessoas realmente não têm muito que fazer para ficar inventando esse tipo de coisa", diz. "É ridículo." Ele já foi chamado de sucessor de Oscar Niemeyer - "meu trabalho não tem absolutamente nada a ver com o dele" -, arquiteto da moda - "já faz mais de 12 anos que me chamam assim; estranha essa moda que não passa..." - e minimalista - "falta de compreensão total do meu trabalho".

Então é melhor deixar que ele próprio se explique. "Eu ainda não me descobri arquiteto. Arquitetura é a forma como me expresso, mas não fico preocupado em ser uma coisa definitivamente", afirma. E, quem não o conhece, deve custar a acreditar que o mesmo homem que repete isso é o badalado autor de projetos como o Hotel Fasano, a loja das Havaianas e uma unidade da Livraria da Vila, todos nos Jardins. "Eu não faço arquitetura do jeito que eu quero. Faço a obra que o cliente quer, só que do meu jeito. É uma diferença sutil, que resume o que acredito", complementa ele, graduado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Filho de um imigrante polonês que veio para São Paulo após a 2ª Guerra - durante a qual ele ficou escondido por mais de três anos em um porão -, Weinfeld nasceu em 1952. Quando seu pai chegou ao Brasil, começou tudo do zero. "Nem o idioma ele falava", conta. Atuou como vendedor ambulante até conseguir montar uma indústria têxtil.

Ainda na adolescência, Weinfeld demonstrava aptidão para as artes plásticas. "Sempre tinha um trabalho sendo apresentado em exposições", recorda-se. Em seguida, passou a utilizar o cinema para se expressar. Em seu passado como cineasta, escreveu e dirigiu 14 curtas e um longa-metragem (Fogo e Paixão, de 1988, com Fernanda Montenegro no elenco), em parceria com o também arquiteto Marcio Kogan. "Foram trabalhos interessantes porque o arquiteto tem uma visão muito específica sobre a cidade e as relações humanas", acredita.

MÚSICA E DISCOS VOADORES
"Bicho curioso por natureza", como ele mesmo diz, Weinfeld tem vários hobbies. A música talvez seja o principal. Em seu apartamento em Higienópolis, onde mora sozinho - é separado e tem uma filha -, possui uma farta coleção de CDs e um piano. Eclético, admira bandas que vão da inglesa Radiohead - é amigo pessoal do guitarrista, Jonny Greenwood - à cearense Cidadão Instigado - a cujo show foi recentemente -, passando pelo sambista carioca Paulinho da Viola e pela cantora de jazz americana Blossom Dearie (1924- 2009). Há alguns anos, chegou a estudar violino. Nas artes plásticas, admira a suíça Mira Schendel (1919-1988). Tem alguns - mas não diz quantos - quadros dela em sua casa.

Simples torresmos são seu prato favorito. Para beber, uma boa cachaça. "Gosto da Anísio Santiago, mas há outros bons rótulos", explica. Weinfeld acredita em discos voadores e já foi um estudioso de ufologia. "No colégio eu tinha um professor de biologia que era a maior autoridade brasileira no assunto", lembra ele, frisando que já faz mais de dez anos que não lê nada sobre o tema. "Gostava de conversar com ele, nos intervalos das aulas, sobre isso. Eu era fascinado por coisas esquisitas."

Como arquiteto, ele estima ter feito cerca de 80 obras. Tem 35 em andamento - trabalha com uma equipe de 25 profissionais em seu escritório. A maioria em São Paulo. "No exterior, estamos fazendo um hotel em Belgrado, na Sérvia, e uma casa na Ilha de Virgem Gorda, no Caribe", revela. Weinfeld admite que, "infelizmente é comum" negar-se a fazer algum projeto. "Ou porque não tenho interesse na proposta ou porque percebo que não tenho a ver com a pessoa. Me dou ao respeito", justifica-se.

Perfeccionista ao extremo, custou a aceitar desenvolver uma proposta para ser publicada no Estado. Assim que o prazo combinado se encerrou, limitou-se a argumentar que não havia conseguido uma boa ideia. Depois de muita insistência, enviou uma curiosa solução para, segundo ele, "diminuir a quantidade de feiura" de São Paulo. "A proposta é cortar tudo o que estiver acima do quarto andar na cidade."


Quinta-feira, 29 de outubro de 2009

4 de nov. de 2009

Um casamento de meio século

ESPECIAL
A parceria de Botti e Rubin vem dos tempos de faculdade; hoje seu escritório emprega 30 arquitetos

Para ficar em três exemplos: o Centro Empresarial do Aço, no Jabaquara (projetado em 1989), as três torres do Centro Empresarial Nações Unidas, na Marginal do Pinheiros (também de 1989), e o Centro Brasileiro Britânico, em Pinheiros, são uma amostra do trabalho do escritório Botti Rubin na paisagem de São Paulo.

Citado por 8% dos arquitetos que responderam à enquete do Estado, o escritório fundado em 1956 por Alberto Botti, hoje com 78 anos, e Marc Rubin, de 77, nasceu como consequência de um concurso de arquitetura, quando eles ainda estudavam na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Juntamos as forças para projetar um hospital. Aquela coisa de estudante: trabalho que hoje faríamos em um mês, levamos seis", lembra Botti, contando que um outro colega de curso participou desse projeto mas acabou saindo do grupo quando o escritório passou a existir de fato. "Não ganhamos o concurso, mas isso não vem ao caso. O importante é que, depois, montamos um "escritorinho" e continuamos trabalhando."

"Escritorinho" que hoje emprega 30 arquitetos, em um prédio projetado pela própria dupla na Rua Hungria, e contabiliza cerca de mil obras realizadas. Mas nem sempre foi assim. "No início, tínhamos uma salinha naquele edifício do Oscar Niemeyer na Rua Barão de Itapetininga", afirma Botti, referindo-se ao Califórnia, concebido por Niemeyer em 1951. "Trabalhávamos dia e noite."

Lá, a sala da Botti Rubin era vizinha à sede de uma construtora. "Quando começamos a crescer e eles também, eu disse ao proprietário: ou nós ou vocês precisamos sair daqui, para o outro usar as duas salas", recorda-se. "Ele acabou saindo e nós dobramos a nossa área."

Nos anos 60, o escritório se desdobrou em outras empresas. "Tínhamos construtora, administradora e incorporadora", enumera. Foi assim por 12 anos, quando a sede era na Rua Brigadeiro Luís Antonio. "Era uma máquina de ganhar dinheiro, mas não tínhamos tempo para fazer arquitetura", conta. No início da década de 70, duas tragédias fizeram os sócios repensar o futuro: durante viagem pela Itália, a primeira mulher de Botti morreu em acidente de carro; pouco tempo depois, Rubin sofreu um enfarte. "Vendemos tudo e ficamos só com o escritório de arquitetura", resume Botti.

BARCOS, ESQUI, GOLFE...
Botti e Rubin eram amigos de faculdade antes de firmarem o bem-sucedido "casamento" de sua sociedade. O primeiro, filho de um banqueiro, nasceu em Santos e passou a viver em São Paulo ainda criança. Rubin, que carrega até hoje o forte sotaque francês, nasceu em Paris e mudou-se com a família para o Brasil durante a 2ª Guerra. "Meu pai era engenheiro de telecomunicações e veio trabalhar aqui", relembra, citando a empresa multinacional que ele dirigia. "Encantei-me com a arquitetura brasileira e resolvi estudar isso para também criar espaços."

E qual a receita de tantos anos de parceria? "Temos temperamentos complementares, por isso é que dá certo", acredita Botti. "Resumindo: ele gosta de barco a vela e eu de barco a motor." Os veleiros, aliás, foram um grande passatempo de Rubin - "já fui até campeão de competição, em 1983, mesmo sem nunca ter sido um grande velejador" -, assim como o esqui na neve. Ultimamente, dedica-se ao golfe nas horas vagas. Mora na Chácara Flora, com a mulher, com quem é casado há 43 anos.

Com o privilégio de quem vive - em uma casa projetada por ele - a menos de 1 km do escritório, Botti conta que até uns dez anos atrás costumava ir de bicicleta ao escritório. "Agora venho de carro, por comodidade." Seu maior hobby continuam sendo os barcos - o seu fica em Santos. "Barcos de velocidade. Gosto de mulheres lentas e barcos rápidos", explica ele, que após a viuvez, casou-se pela segunda vez.

Botti, que de 1973 a 1975 presidiu a Empresa Municipal de Urbanização do Município de São Paulo (Emurb), é um crítico da forma como vem sendo feita a revitalização da região da Luz. Por isso, quando foi convidado a apresentar uma ideia para o Estado, tratou de recuperar uma proposta desenvolvida em 2004 por seu escritório. "A região é hoje ocupada por edifícios baixos e sem maior valor arquitetônico", diz. "O ideal seria uma reconstituição das quadras, formando espaços maiores, e um sistema viário mais generoso, com amplos calçadões onde a vida acontece. Com edifícios de dimensões amplas, de usos mistos: habitação, serviços e comércio, de forma equilibrada."

De acordo com ele, isso supriria as deficiências de funções do centro velho paulistano e alavancaria a recuperação da região. "O problema maior (das obras que vêm sendo feitas) é que se pegou uma areazinha pequena. O resto continua como era. A renovação urbana não pode ser feita em área muito pequena. Está se perdendo uma oportunidade", critica. "Por que não estender a renovação até a Marginal do Tietê?"


Quinta-feira, 29 de outubro de 2009

3 de nov. de 2009

Os senhores dos grandes prédios

ESPECIAL
Das pranchetas de Aflalo & Gasperini, já saíram 1.222 obras, a maioria em SP, um total de 5,7 milhões de m²

Tudo é superlativo no escritório Aflalo & Gasperini, apontado por 52% dos arquitetos que participaram da enquete do Estado como o melhor da cidade. Em quase 50 anos de história, a empresa projetou e acompanhou a construção, na maioria em São Paulo, de 1.222 prédios. "Esses milhões de metros quadrados (um total de 5,7 milhões) são o que produzimos. E o nosso maior esforço sempre foi fazê-los com qualidade", resume, com um sotaque italiano que denuncia suas origens, o arquiteto Gian Carlo Gasperini, de 83 anos. "Nossos prédios têm uma lógica própria, com ênfase na parte estrutural e uma composição arquitetônica clara, limpa, sem extravagância, sem modismos. Essa é a nossa plataforma. E isso fez com que o escritório se destacasse entre os demais, tornando-se um dos maiores em atividade hoje em dia."

Não faltam exemplos a comprovar o que ele diz. De suas pranchetas saíram, para ficar só nos paulistanos, os Colégios Visconde de Porto Seguro (projetado em 1963) e Santa Maria (em 1964); o Iguatemi, primeiro shopping center paulistano (em 1964); a sede do Tribunal de Contas do Município (em 1971); o complexo World Trade Center (em 1992); e a casa de shows Credicard Hall (em 1997), entre tantas outras construções comerciais e residenciais.

O escritório, onde hoje atuam mais de 50 arquitetos, nasceu em 1962, quando Plinio Croce (1921-1984) e Roberto Aflalo (1926-1992) - ambos formados pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - se juntaram a Gian Carlo Gasperini - graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e recém-chegado a São Paulo - para participar de um concurso organizado pela União Internacional de Arquitetos. O certame escolheria um projeto para a construção de um arranha-céu em Buenos Aires, na Argentina, com uma área de 140 mil m² - a obra, entretanto, acabou não executada. O prédio de concreto armado projetado pelo trio desbancou os demais 226 concorrentes. "Foi um concurso badaladíssimo, do qual participaram arquitetos do mundo inteiro", lembra Gasperini. "Ficamos espantados quando soubemos que ganhamos o primeiro prêmio. Daí, então, montamos nosso escritório. E passamos a ser solicitados por clientes. Evidentemente que o fato de ter vencido um concurso internacional dava uma certa fama, assegurava que o nosso trabalho era bom mesmo."

Nascido em Castellammare di Stabia, na Itália, Gasperini mudou-se para o Brasil logo após a 2ª Guerra. "Meu pai era médico sanitarista do governo italiano. Tornou-se prisioneiro de guerra. Foram tempos difíceis", recorda-se, com indisfarçável emoção. "Depois, recebia uma pensão miserável. Então viemos para o Brasil."

Paralelamente às atividades em seu escritório, o arquiteto dedica-se à vida acadêmica. É livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde começou a lecionar em 1974. No dia a dia, demonstra-se bastante ligado à família. "Almoço em casa todos os dias", conta ele que, viúvo desde 1993, é casado pela segunda vez e mora em um apartamento - "cujo prédio foi projetado por nosso escritório", orgulha-se - no Itaim-Bibi.

SEGUNDA GERAÇÃO
Com a morte de Croce e Aflalo, passaram a fazer parte da sociedade os arquitetos Roberto Aflalo Filho, hoje com 56 anos, e Luiz Felipe Aflalo Herman, de 53 - respectivamente, filho e sobrinho do Aflalo fundador. Ambos começaram ali como estagiários, ainda durante os tempos de graduação. É com carinho que Luiz Felipe se recorda do tio Aflalo. "Ele me influenciou muito, por isso me tornei arquiteto", conta. "Quando eu era moleque, sempre ganhava dele álbuns de papel chanson e giz de cera. Depois, foi quem abriu as portas do escritório para que, logo no começo da faculdade, eu viesse trabalhar aqui."

Roberto admite que o fato de ser "filho do dono" causava certo desconforto no início da carreira. "É mérito próprio ou estou aqui porque peguei o barco andando? Olha, até hoje eu tenho essa insegurança", confessa. "Mas meu pai, quando percebia que eu estava traçando um caminho, se retirava de forma a dar espaço para meu crescimento. E ao longo do meu tempo de escritório eu sempre trabalhei mais com o Gasperini do que com meu pai, até para criar um distanciamento, ter um nível de relação menos familiar." Hoje Roberto procura relembrar essas experiências ao encarar o outro lado da história. Seus dois filhos também estão no escritório, um como arquiteto, outro na parte administrativa.

Nos últimos anos, Roberto ajudou a fundar duas associações de bairro - uma fica na região da Vila Olímpia, na qual atua em nome do escritório; outra, próxima ao Ibirapuera, que defende a vizinhança onde mora. "Preocupamo-nos com arborização, calçadas, iluminação, trânsito, lixo, questões de segurança", enumera. "Arquitetos são antenas de certas questões urbanas. E é importante exercer essa função."

Isso, acredita ele, foi importante nos debates que precederam a criação da Lei Cidade Limpa - que proíbe publicidade exterior na cidade de São Paulo e disciplina os letreiros em fachadas do comércio. "Foi um projeto radical e perfeito", define. "Resgatou a autoestima do paulistano ao valorizar a arquitetura e o ambiente urbano." Uma evolução seria a implementação de sua ideia para deixar São Paulo mais bonita: fios subterrâneos em toda a cidade. "Deixaria os prédios sem nenhuma interferência, com uma harmonia indescritível", defende. "Hoje você tem os postes, transformadores pendurados, gambiarras de fios... A arquitetura dos prédios fica como um rádio com interferência."


Quinta-feira, 29 de outubro de 2009

2 de nov. de 2009

Lembranças de um GP Brasil

ESPORTE

Às 11h de hoje (horário de Brasília) será dada a largada do GP de Abu Dabi, que encerra o campeonato 2009 de Fórmula 1. A corrida promete ser bem sem-graça. Primeiro, porque o circuito (novíssimo) é daqueles chatos, em que as chances de ultrapassagem praticamente não existem; segundo porque o campeão do ano já está definido desde a corrida passada, no Brasil: o inglês Jenson Button.

Três semanas atrás, o Estado publicou um perfil de Carlos Montagner, de 61 anos, diretor de prova do GP Brasil. Na semana que antecedeu a publicação, foram horas de conversa dele com este repórter. Ao fim da entrevista, falávamos sobre o "torcedor" que habita cada "diretor de prova". Ele concordou:

"No mundo todo não existe um diretor que não torça para alguém. Da boca para fora eu não posso torcer, é claro. Mas tenho minhas preferências. Gostaria que o Rubinho (Barrichello) ganhasse, que o Felipe Massa estivesse correndo e ganhasse. No ano passado, por exemplo, fiquei muito chateado porque dei a bandeirada para o Felipe como 'campeão do mundo' e, segundos depois, para o (Lewis) Hamilton como campeão. Fiquei muito emocionado. Dois campeões na mesma corrida? Nunca tinha visto isso. Realmente aconteceu uma coisa diferente. Vi todos comemorando e, logo depois, 'descomemorando'."


Domingo, 1º de novembro de 2009

1 de nov. de 2009

Dia das Bruxas vai assombrar a Casa das Rosas

HALLOWEEN
Mansão terá programação especial

Pelo segundo ano consecutivo, Dia das Bruxas vai rimar com literatura na Casa das Rosas. A partir das 19 horas de hoje, o espaço será a sede do evento Mansão Macabra, com recitais, apresentações teatrais, música gótica, performances de terror e filmes durante a madrugada. Amanhã à tarde haverá versão matinê para crianças. "No ano passado, recebemos cerca de 500 pessoas", lembra o poeta e crítico literário Frederico Barbosa, diretor da Casa. "Esperamos mais agora."

O homenageado será o poeta e escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) - dono de obra que tem a morte como tema recorrente -, cujo bicentenário de nascimento é neste ano. "Sem dúvida, um dos maiores escritores que o mundo já conheceu", diz Barbosa. Uma instalação multimídia chamada Edgar Alone Poet lembrará sua trajetória.

Com a participação dos poetas Luiz Roberto Guedes e Carla Caruso, um sarau está marcado para começar às 20h. O público também poderá recitar seus próprios textos. Além dos poemas, está previsto um show com o Blu Jazz Trio. Duas horas mais tarde, a Nossa Companhia Imaginária encena o conto O Gato Preto, de Poe.

À meia-noite, a Casa das Rosas se transforma em mansão mal-assombrada. Um misterioso anfitrião vai receber os grupos de visitantes, de 30 em 30 pessoas, para revelar os cômodos da casa.

Das 2h30 às 4h, haverá novo recital, sob o rótulo de "poemas malditos". Poetas interpretarão textos de Poe, Charles Baudelaire (1821-1867), Lord Byron (1788-1824), Álvares de Azevedo (1831-1852) e Augusto dos Anjos (1884- 1914), além de criações próprias. A noitada se encerra às 4h, com show tributo da banda paulistana Interlude aos ingleses do The Cure.

O Café Panaroma, que funciona na Casa das Rosas, ficará aberto, com cardápio especial: massas negras, molhos vermelhos e drinques "de sangue". Enquanto isso, filmes - está prevista a exibição de Nosferatu, O Homem Que Ri e O Gabinete do Dr. Caligari -, teatro (O Engenho Mal-Assombrado e Nosferatu), contação de histórias e dança serão apresentados no jardim.

CRIANÇAS
Amanhã será a vez das crianças e do folclore. A partir das 14h, a Casa das Rosas terá o Ré Lou Im, com brincadeiras educativas e contação de histórias de sacis, curupiras e mulas sem cabeça. Está programada para as 16h a exibição do filme A Noiva Cadáver e, para as 18h, um show com o grupo Musicantes.

Entusiasmado com o evento, Barbosa já tem a resposta pronta para os que criticam a incorporação de uma data festiva estrangeira ao calendário da Casa das Rosas. "Nossa atitude é antropofágica. Não somos covardes para ter medo do que vem de fora."

Mansão Macabra, O Halloween da Casa das Rosas ocorre na Avenida Paulista, 37; telefone 3285-6986. Hoje, a partir das 19 horas, e amanhã, a partir das 14. Grátis


Sábado, 31 de outubro de 2009