5 de jan. de 2009

Contra furtos, cemitérios de SP ganham câmeras

CRIMINALIDADE
Serviço Funerário investe R$ 450 mil para monitorar 7 dos 22 cemitérios; neste ano, foram 56 ocorrências

"A pessoa não tem sossego mais nem depois de morta", diz a secretária Eliete Solange Donni, de 53 anos, em frente ao túmulo onde estão enterrados seus avós, tios e primos, no Cemitério da Vila Mariana, zona sul. Há dois meses, na quarta vez em que o jazigo da família foi alvo de bandidos, levaram todas as nove plaquinhas de bronze com o nome dos que foram ali sepultados. "Cada uma custa R$ 60", lembra ela. O crucifixo, também de bronze, já havia sido levado em investidas anteriores. A boa notícia para Eliete e tantos outros paulistanos que têm prejuízos financeiros e a memória de familiares desrespeitada por esses furtos é que o Serviço Funerário se prepara para instalar monitoramento por câmeras nos cemitérios.

Na primeira fase, cuja implantação está prevista para este mês, serão 90 equipamentos distribuídos em 7 dos 22 cemitérios públicos de São Paulo. Foram investidos R$ 450 mil - R$ 150 mil em câmeras e o restante em infra-estrutura. "Desde que assumi a diretoria, em 2006, avaliamos a necessidade desse monitoramento eletrônico", afirma o diretor de Segurança, Celso René Vieira. "Como temos limitações de recursos financeiros, montamos um plano de ação. A intenção é que, futuramente, tenhamos câmeras em todos os cemitérios da cidade." Elas serão interligadas ao sistema da Guarda Civil Metropolitana (GCM).

Os sete primeiros contemplados são os Cemitérios do Araçá, da Consolação, da Quarta Parada, de Santana, de Santo Amaro, São Paulo e da Vila Mariana. Todos esses - mais o do Tremembé - já contam com policiamento fixo, 24 horas por dia, da GCM que, nos demais, faz apenas rondas periódicas. Alegando questões estratégicas de segurança, a GCM se recusou a divulgar o número de envolvidos nessas operações.

Para Vieira, as câmeras funcionarão como "armadilhas para pegar rato" e devem inibir o número de furtos e vandalismo nos cemitérios paulistanos. "Muitos ladrões são moradores de rua, mas há os que se organizam em quadrilha, gerenciados por receptadores do material, geralmente donos de ferro-velho", explica. Enquanto isso, já há quem prefira substituir o velho e tradicional bronze por outros materiais. "Vamos mandar fazer novas plaquinhas de inox ou de granito", diz Eliete. Vasos de cerâmica e de granito também estão se tornando comuns.

NÚMEROS
De acordo com informações do Serviço Funerário, foram registradas 56 ocorrências de furto nos cemitérios paulistanos neste ano - estão computados os números até outubro. O Cemitério da Vila Mariana encabeça o ranking, com 15 casos, seguido pelo Cemitério do Tremembé, com 8 (veja nesta página o ranking dos cinco mais visados pelos bandidos).

Em comparação com os dados do mesmo período de 2007, quando foram registrados 76 casos de furto, houve uma queda de 26%. "Atribuímos esse resultado a algumas medidas que temos tomado, principalmente à parceria com a Guarda Civil", comemora o diretor. Nem sempre a queixa é feita por um freqüentador do cemitério. Na maioria dos casos, é o próprio administrador que registra a ocorrência.

Apesar de positivos, os números são frios diante da decepção e indignação sentida por quem não encontra os letreiros, vasos e imagens nos túmulos. "Eles fazem uma faxina", reclama a pensionista Jandira Bonito Giopato, de 77 anos, que todas as manhãs de sábado passa cerca de uma hora no Cemitério da Vila Mariana, lavando túmulos onde estão enterrados pais, marido e um filho.


RANKING

Vila Mariana: 15 ocorrências
Tremembé: 8 ocorrências
Vila Formosa: 5 ocorrências
Quarta Parada: 4 ocorrências
Araçá: 4 ocorrências

Fonte: Serviço Funerário


Segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

4 de jan. de 2009

Trânsito, a ''palhaçada'' de SP

ENQUETE
Profissionais do riso ouvidos no Dia do Palhaço foram unânimes em eleger os congestionamentos o pior da cidade

Quem ganha a vida fazendo os outros rir também tem seus momentos de tristeza. Para marcar o Dia do Palhaço - na última quarta-feira, dia 10 -, o Estado perguntou a cinco deles qual seria a maior palhaçada da cidade. Todos se lembraram do trânsito. "São muito engraçadas as placas de velocidade máxima nas marginais, de 90 quilômetros por hora", diz, irônico, o palhaço Marcio Ballas, o João Grandão do espetáculo Jogando no Quintal. "Alguém consegue tanto?"

Fundador do Espaço Parlapatões e do Circo Roda Brasil, o palhaço Hugo Possolo mostra seu nariz vermelho para a Companhia de Engenharia de Tráfego, a CET. "As estatísticas de trânsito só servem para mostrar que o problema é cada vez maior. Ninguém pensa em uma solução", critica. "A gente tem a CET, sigla de ?Como Engarrafar Tanto?, que se preocupa mais em multar do que em auxiliar."

O palhaço Angelo Brandini, da Companhia Vagalum Tum Tum e do grupo Doutores da Alegria, acredita que o problema está no uso individualizado dos carros. "Acho uma palhaçada enorme, no mau sentido, a questão do trânsito desta cidade. Fico vendo aqueles carros parados e é surreal para mim observar dentro deles: quase sempre há apenas um motorista solitário", constata. "Uma pessoa carregando três toneladas de ferro. É a pior palhaçada. Se fosse a pé, chegaria antes."

Dois ex-integrantes da famosa companhia canadense Cirque du Soleil, de volta ao Brasil depois de rodar o mundo, também se impressionam negativamente com o trânsito paulistano. "Acho um absurdo as ruas malfeitas, cheias de buracos. Já estourei dois pneus de meu carro (um Audi A3) e tive um prejuízo de R$ 600 cada vez", relata Marcos Casuo.

"Em abril, dois ou três dias após meu retorno ao País, aluguei um carro para ir da Consolação até São Bernardo. O trânsito estava horrível, caminhões e ônibus iam me empurrando. Fui chorando pelo caminho. Decidi que não teria mais carro", conta Claudio Carneiro. "Consigo administrar minha vida assim: de metrô, de ônibus e, às vezes, de táxi. Se mais gente fizesse assim, o trânsito não seria tão ruim."


Domingo, 14 de dezembro de 2008

3 de jan. de 2009

O arquiteto que encantou Saramago

PAULISTÂNIA
Desde 1997, Fernando Brandão é o responsável pela estética da Livraria Cultura

A vida do arquiteto Fernando Brandão, de 48 anos, é pontuada por três gênios de áreas diferentes. O da bola, o do traço e o da palavra. Pelé, Niemeyer e Saramago. A seu modo, cada um inventou o próprio jeito de fazer beleza. E são essas belezas, ímpares, que influenciaram a vida e a obra de Fernando. Que, sensível, costuma derramar-se em lágrimas quando percebe que sua criação também emociona.

Paulistano de Santo Amaro, quando era criança seu pai o levava para o estádio toda vez que Pelé vinha jogar na cidade. "Tornei-me 'pelezista'. Ficava vendo só o Pelé, um bailarino. Era tão bonito e impressionante o domínio que ele tinha do jogo", lembra. Os dribles, passes e gols do rei do futebol ficavam gravados na memória do menino que se divertia transformando em predinhos as caixas de remédio de amostra grátis que o pai, médico, trazia para casa. "Fazia cidades. Era minha brincadeira preferida", conta. Aos 12 anos, se tornou escoteiro. E a maior aventura foi um acampamento que durou três noites no Parque do Ibirapuera, em 1972.

O segundo gênio a cruzar a sua vida foi Oscar Niemeyer. Em 1985, quando Fernando cursava o último ano de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, cismou que o renomado arquiteto seria um dos entrevistados para seu trabalho de conclusão de curso. "Peguei um (ônibus) Cometão e fui para o Rio. Fiquei umas duas horas ensaiando antes de criar coragem para bater na porta dele", diz. Niemeyer estava sozinho no escritório e o atendeu. "Perguntei sobre o compromisso que ele tinha com as futuras gerações", se recorda. "Ele disse que não tinha nada a ver com isso, não havia criado escola nenhuma e cada um deveria fazer o próprio estilo." Essas palavras serviram de estímulo para que Fernando buscasse sua originalidade. "Sou iconoclasta", gosta de repetir.

Após a formatura, começou a trabalhar com interiores. "Fazia pequenos projetos, estandes, essas coisas", conta. Em julho de 1995 produziu, para o Sesc Pompéia, a exposição Tramar e Brincar É Só Começar. "Eram brinquedos de tecido para as crianças", explica. O trabalho lhe rendeu um prêmio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB).

A grande guinada de sua carreira aconteceu em 1997, quando foi contratado pela Livraria Cultura para repaginar as lojas. O efeito prático que isso representou é muito fácil de ser percebido. Como era uma livraria até os anos 90? "Um depósito de livros", responde Fernando. Seu desafio era transformar esse ambiente. "Os hábitos das pessoas mudam. Hoje a livraria não tem de ser silenciosa, cerimoniosa, com um ar de pseudo-respeito."

Aos poucos, as idéias aplicadas por ele nas lojas da Cultura foram adaptadas pelas principais concorrentes da cidade. O livro passou a ser manuseado e lido pelo freqüentador. O design das livrarias ficou mais bonito e arrojado. "O negócio foi dando certo e virou referência", explica. "Não se vende mais livro sem um café ou sem uma área infantil."

A maior missão ainda estava por vir. Em 2006, o livreiro Pedro Herz, dono da Cultura, decidiu transformar o espaço do Conjunto Nacional onde por 40 anos funcionou o Cine Astor, na Avenida Paulista, na maior livraria do Brasil. Convocou Fernando. "Foi um ano de projeto e quatro meses de obras. Fizemos 26 estudos",diz.

Com seus pufes coloridos e dragões chamativos - "por ser o único bicho da fábula infantil que não existe de verdade, é pura fantasia"- essa loja gigante da Cultura tem 150 mil títulos de livros nas prateleiras e 35 mil de CDs e DVDs. Por dia é freqüentada por 5 mil clientes. Virou programa de lazer para muitos. "Ela faz o papel que seria de uma biblioteca", aposta Fernando. "Tenho certeza de que hoje tem mais gente lendo um livro, de graça, de fio a pavio, na Cultura do que em todas as bibliotecas municipais de São Paulo." E é por isso que ele vem pensando em fazer um trabalho nas bibliotecas da cidade. "Tenho muita vontade de criar uma ONG para mudar esses espaços. Já conversei com várias pessoas e vamos doar projetos para as bibliotecas", revela.

Sua felicidade é indisfarçável ao comentar o resultado positivo de uma livraria cuja organização foi totalmente bolada por ele. "Outro dia, um amigo me disse que, quando ele era pequeno, o programa mais chato era quando o pai o levava a uma livraria", conta. "Hoje essa é a diversão preferida de sua filha de 3 anos."

Durante o processo de reforma, Fernando acabou fazendo amizade com o dono de uma joalheria que desde 1970 está no Conjunto Nacional. "Para mim era muito triste ver fechado o espaço antes ocupado pelo Cine Astor", conta o joalheiro Aike Dossis. O espaço, de 1,4 mil m², quase foi transformado em igreja evangélica e bingo, antes de virar livraria. "Quando estava aquele tapume, eu o convidava para ver por dentro como estava ficando. Mas ele sempre se negava", relembra Fernando.

No dia em que finalmente o tapume foi retirado, o arquiteto chorou. "Foi um ano de sangue e suor. Aí vieram as lágrimas: achei que ficou o máximo", justifica, sem falsa modéstia. E então o joalheiro, também emocionado, disse a ele que iria lhe dar uma jóia de presente. Uma semana depois, lhe entregou dois anéis - um para Fernando e um para sua mulher - de prata, idênticos, com um desenho alusivo à trama dos corrimãos da passarela de entrada da livraria. Novas lágrimas. "Fui para casa chorando, não conseguia nem atender o celular", lembra, com os olhos visivelmente marejados.

No mês passado, nova homenagem. Surge o terceiro gênio da vida de Fernando. O escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, foi conhecer a Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Dias depois, em seu blog pessoal, rasgou elogios ao que viu. Foi o dono da livraria, Pedro Herz, quem encaminhou o texto de Saramago, por e-mail, ao arquiteto. Que, novamente, chorou. "Surpreender a sensibilidade de um Nobel é cumprir a missão na Terra", comemora. Na noite da última quarta, a mesma livraria que o consagrou foi palco para o lançamento do livro Fernando Brandão - Livraria Cultura, que a jornalista Bianca Antunes fez para a coleção Arquitetura Comentada, da editora C4. Aike Dossis estava lá, revendo o amigo arquiteto. José Saramago está lá, com sua laudatória frase estampada logo na página 5 do livro.


Domingo, 14 de dezembro de 2008

2 de jan. de 2009

Jardim Botânico de SP festeja 80 anos com livro e eventos

LAZER
Visitantes não pagam ingresso hoje; ao meio-dia, será reaberta entrada principal

O Jardim Botânico de São Paulo está em festa. Quem for ao parque hoje, além de não precisar pagar os R$ 3 normalmente cobrados na entrada, ainda poderá conferir uma interessante programação. Tudo para marcar os 80 anos da fundação, comemorados ao longo deste ano.

Haverá exposição de orquídeas - de um acervo com 700 espécies diferentes - e de fotos que contam a história do Botânico. Estão previstas ainda quatro apresentações musicais: da Banda Militar do Estado (10h30), dos Trovadores Urbanos (12 horas), do Quarteto de Cordas (12h30) e do conjunto Entre Parentes (14 horas).

Ao meio-dia, será reaberta a entrada principal do Jardim Botânico. Após meses de obras, deixa à mostra o Córrego Pirarungaua, um dos muitos que formam o Riacho do Ipiranga. "Anteriormente, ficava encanado", conta a diretora da instituição, Lilian Penteado Zaidan. "O paisagismo no entorno, com xaxins, helicônias, samambaias e bromélias, foi feito com plantas resgatadas das obras do Rodoanel." A preocupação em preservar o material encontrado durante a construção da estrada soma-se aos esforços do Botânico na luta contra a extinção de espécies vegetais. No parque há exemplares de palmito e pau-brasil, por exemplo, ambos ameaçados.

LIVRO
Lilian é co-autora do livro Do Éden ao Éden - Jardins Botânicos e a Aventura das Plantas, da Editora Senac, que será lançado às 13 horas, durante as comemorações. A obra traz a história de 35 parques do gênero ao redor do mundo, incluindo o paulistano e o carioca. "O de São Paulo é diferente porque é o único ladeado por vegetação nativa, no caso a mata atlântica", afirma a diretora. "Os demais ficam dentro da cidade."

A peculiaridade do Jardim Botânico do Rio é sua história. Ele está ligado à vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808. "A construção dele foi uma das primeiras ações de dom João VI no Brasil", lembra Lilian. "Por isso, ele tem uma cara mais européia, com fontes e construções da época." Neste ano, o jardim comemora dois séculos de existência.

Gil Felippe, o outro autor do livro, é Ph.D. em Botânica pela Universidade de Edimburgo, na Escócia, e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele acredita que o jardim botânico mais importante do mundo é o de Kew, às margens do Rio Tâmisa, na Inglaterra. "Por vários motivos", defende. "Pela coleção de plantas, pelas exposições e pelas pesquisas."

HISTÓRIA
Considerado o mais antigo do mundo, o Jardim Botânico de Pisa, na Itália, foi criado em 1543. "Sua principal função era manter as plantas medicinais usadas pela faculdade local", diz Felippe. "Antes dele, os jardins eram particulares: cada professor tinha o seu."

Também italiano, o Jardim Botânico de Pádua foi fundado em 1545 como um horto apenas medicinal. Nunca mudou de endereço - o de Pisa transferiu-se três vezes - e conserva, praticamente inalterada, sua estrutura inicial. Por sua importância, em 1997 foi considerado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Essa preocupação inicial, ligada à fitoterapia, se perdeu no decorrer dos séculos. Os parques passaram a ser locais de pesquisa botânica em geral, além de servirem como espaços de lazer e contemplação. "Hoje, o de Chelsea, em Londres, na Inglaterra, é o único a ter a característica original", afirma Felippe. "Lá os canteiros são divididos assim: há o setor da oncologia, o do sistema respiratório..."

E por que as pessoas gostam tanto dos jardins botânicos? "A nossa idéia é que o homem foi posto fora do Éden e está sempre à procura de reaver esse jardim", acredita Felippe.


Sábado, 8 de novembro de 2008

1 de jan. de 2009

De feira do livro a museu, a efervescência de São Miguel

CULTURA
Bairro deve ter casa de vidro para apoio turístico e centro cultural orçado em R$ 5,4 milhões

Um dos bairros mais antigos de São Paulo, São Miguel Paulista, na zona leste, vive uma boa fase de efervescência cultural. A histórica capela que fica no centro do bairro, construída em 1622, ganhará um anexo chamado de “casa de vidro” e, a partir do ano que vem, deve se tornar um museu. Ponto de parada de bandeirantes, o Sítio Mirim será transformado em centro cultural. E a Feira do Livro de São Miguel Paulista, em sua terceira edição, atraiu 5 mil pessoas entre quinta e sábado.

Por falar em livro, acabam de ser lançados dois títulos com olhares sobre o bairro. Em Um Nordeste em São Paulo – Trabalhadores Migrantes em São Miguel Paulista, o historiador Paulo Fontes, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, busca reconstruir o cotidiano dos migrantes nordestinos que vieram para o bairro em meados do século 20.

Já o almanaque Um Olhar Sobre São Miguel Paulista – Manifestações Culturais, Ontem e Hoje é fruto de um trabalho da Fundação Tide Setúbal. “Foi feito pela própria comunidade”, conta o jornalista e historiador Mauro Bonfim, nascido no bairro e coordenador do projeto. “Durante dois anos, 60 jovens de 16 a 21 anos saíram a campo coletando depoimentos de moradores.”

Cheio de curiosidades, o almanaque será distribuído gratuitamente a bibliotecas e escolas públicas e ajudará a recuperar um pedaço da memória paulistana. Nele, há um panorama sobre a formação do bairro, que além de nordestinos recebeu imigrantes japoneses, portugueses e árabes. E histórias interessantes, como a de um movimento separatista que, nos anos 60, queria que a região se tornasse um novo município.

Acredita-se que São Miguel Paulista tenha surgido ainda no século 16. Em 1560, um grupo de índios guaianases – liderados por Piquerobi, irmão do conhecido cacique Tibiriçá, aliado dos padres jesuítas – se desentendeu com os colonos da vila de São Paulo de Piratininga. Eles caminharam por 20 quilômetros na direção leste e ali criaram uma nova aldeia, chamada de Ururaí.

José de Anchieta foi encarregado pela Companhia de Jesus de reencontrá-los. Ali chegando, batizou o povoado de São Miguel de Ururaí e mandou erguer uma capela de bambu e sapé. Em 1622, os jesuítas ergueram uma outra igrejinha, que até hoje fica na praça central do bairro. O prédio é original, apesar de ter sofrido algumas reformas no decorrer dos séculos.

Há dois anos, o templo – tombado por Iphan, Condephaat e Conpresp – começou a ser restaurado. Ao custo de R$ 5,6 milhões, bancados pela iniciativa privada, ficou pronto em junho e, a partir do ano que vem, deve se transformar em um museu, aberto à visitação pública.

A novidade é a construção de uma casa de vidro próxima da igreja. “Será um bloco de 80 m² que abrigará os serviços de apoio à visitação, como banheiros, recepção, guarda-volumes e administração”, antecipa o arquiteto Alessandro Pompei, responsável pela obra. A casa ficará sobre uma base de concreto, sem alicerces. Tudo para preservar o solo. “Achamos prudente não interferir nele, já que há muita informação arqueológica”, diz. O vidro foi escolhido para que não atrapalhe a visualização da quatrocentona capela.

Também tombado pelos três órgãos de proteção patrimonial, o Sítio Mirim, em ruínas, era ponto de parada dos bandeirantes nos séculos 17 e 18. A partir do ano que vem, o espaço deve ser transformado em centro cultural, com auditório, biblioteca e um salão para oficinas. “Vamos proteger as ruínas de um processo de degradação e aproveitar a área para lazer e cultura”, conta um dos arquitetos do projeto, Marcos Cartum. A previsão é que as obras, orçadas em R$ 5,4 milhões, comecem em 2009.


Segunda-feira, 10 de novembro de 2008

31 de dez. de 2008

Festival eclético

Shows, exposições e filmes estão entre as atrações de ciclo judaico

Durante uma semana, o Centro da Cultura Judaica deixará de ser um centro apenas da comunidade israelita. Isso porque 21 das 36 atrações do IV Ciclo Multicultural têm outras raízes. Haverá programas para (quase) todos os gostos, abrangendo cinema, música, dança, gastronomia, fotografia, artes plásticas, literatura e teatro. A lista dos convidados vai do cantor e compositor Gabriel, o Pensador, ao poeta índio guatemalteco Humberto Ak'abal – que falará sobre tradições xamânicas e lançará seu livro Tecedor de Palavras, no dia 26, às 16h30. O tema escolhido para nortear o evento deste ano é a sinestesia da arte. "Queremos que as pessoas experimentem um passeio pelos cinco sentidos", explica a organizadora, Yael Steiner.

Um bom exemplo é a apresentação do grupo portenho Nuevo Trio Argentino, que executará obras de Felix Mendelssohn e Astor Piazzolla (dia 21, às 21h). Antes do início do espetáculo serão servidos vinhos argentinos. Quem quiser se concentrar totalmente na música poderá ouvir o espetáculo com uma venda nos olhos. Após a exibição de filmes, estão programadas degustações. Espectadores vão saborear chocolates (depois da fita Chocolate, dia 20, às 15h), especiarias (Tempero da Vida, dia 22, às 15h) e vinhos kosher (Quando É que Vamos Comer?, dia 24, às 15h). Workshops de culinária com o gourmet Breno Lerner completarão as tardes cinéfilo-gastronômicas.

Para a garotada, o caricaturista uruguaio Hanoch Piven, cujas obras estarão expostas na Galeria do Centro da Cultura Judaica, ensinará suas técnicas de colagem e desenho (dia 21, às 17h). Gabriel, o Pensador, mostrará o seu lado escritor de livro infantil – é o atual vencedor do Prêmio Jabuti da categoria, com Um Garoto Chamado Rorbeto –, narrando uma história para as crianças (dia 21, às 15h30).

IV Ciclo Multicultural. Centro da Cultura Judaica. Rua Oscar Freire, 2500, Sumaré, 3065-4344, Metrô Sumaré. Até dia 26. A partir de segunda (20). Grátis mediante 1 quilo de alimento não perecível ou 1 livro infanto-juvenil em bom estado. http://www.ciclomulticultural.org.br.


Quarta-feira, 22 de novembro de 2006

30 de dez. de 2008

Plantando a sua própria floresta

Nos planos do SOS Mata Atlântica, o plantio de 4 milhões de árvores em 5 anos

O empresário Carlos Junqueira acaba de comprar dez árvores que serão plantadas na mata atlântica. Incentivado pela marcenaria Etel Interiores, de São Paulo, com a qual mantém negócios, ele garante que, em breve, vai aumentar sua “floresta”. A marcenaria é uma das primeiras empresas a participar do projeto Florestas do Futuro (http://www.florestasdofuturo.org.br), da Fundação SOS Mata Atlântica. Nos próximos cinco anos, a ONG pretende plantar 4 milhões de árvores. “O projeto é longo e ainda engatinha, mas os empresários o têm recebido bem”, conta Sulce Lima, do Departamento de Comunicação e Marketing da SOS. Ela lembra que “trabalhar com meio ambiente exige tempo e paciência”.

O Florestas do Futuro propõe a cada empresa participante adotar uma floresta, financiando o plantio de pelo menos 15 mil árvores. As empresas tornam-se parceiras da SOS Mata Atlântica, “formando uma cadeia de efeitos positivos”, como diz diretor da fundação, Mario Mantovani.

A lógica do projeto baseia-se no que se convencionou chamar de créditos de carbono: a quantidade de dióxido de carbono emitida na atmosfera deve ser compensada com o plantio de árvores. Essas árvores estão indexadas no mercado de capitais. “No futuro, certamente haverá uma explosão de recursos financeiros para isso”, prevê Mantovani, lembrando que a preocupação ecológica e a responsabilidade social têm se tornando necessidades crescentes.

A diretora financeira da Etel, Lissa Tozzi, conta que sua empresa “trata a madeira como jóia da natureza. Por isso temos um cuidado todo especial”. A marcenaria já adquiriu sua floresta: 15 mil árvores serão plantadas no Vale do Tibagi (PR).

Anne Louette, coordenadora do Núcleo de Ação Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), sempre diz aos empresários que “o carro já existe e só é necessário abastecê-lo”. Ela garante que as ações dão certo quando o empresariado busca apoio técnico e estrutural das ONGs. O gerente de projetos ambientais da Fiesp, Nilton Fornasari, confirma: “O relacionamento com a comunidade facilita a condução dos projetos de modo mais adequado”.

Mas será que as empresas não estão se aproveitando dessas parcerias para fazer marketing? A SOS Mata Atlântica espera que não. “Acredito na alma ecológica das empresas. É importante que elas vejam esses projetos conscientes de que estamos caminhando para a falência ambiental”, observa Sulce Lima convencida de que seu trabalho resultará em benefício coletivo.


Quarta-feira, 17 de novembro de 2004