31 de jan. de 2009

Multa barata e impunidade facilitam abusos

SUJEIRA NAS ESTRADAS
No ano passado, apenas 37 infratores por mês, em média, foram punidos com a taxa de R$ 85,13

Todo mundo que passa pelas rodovias já deve ter testemunhado algum engraçadinho jogando lixo pela janela. Provável também que dificilmente saiba de alguém que tenha sido multado. A explicação é simples: são raríssimos os casos em que a polícia consegue penalizar um porcalhão das estradas.

A Polícia Militar Rodoviária – que atua em rodovias estaduais, um total de 22 mil quilômetros – e a Polícia Rodoviária Federal – a quem compete fiscalizar as federais, que em São Paulo representam mil quilômetros – informaram ao Estado o número de punidos por atirar lixo nas estradas no decorrer do ano passado. No primeiro caso, a média mensal ficou em 29 multas por mês, considerando os dados até outubro, já que os do último bimestre ainda não estavam consolidados. Os policiais federais autuaram, mensalmente, oito motoristas. Um total de 37 multas por mês, em média.

“É um absurdo. Nunca soube que alguém foi multado por causa de lixo”, diz Odair Tafarelo, gestor de Atendimento da AutoBAn, concessionária do Sistema Anhanguera-Bandeirantes.

Os policiais se defendem. “Há uma dificuldade de constatação”, explica o tenente André Nogueira, chefe do Setor de Controle de Autuações do Comando de Policiamento Rodoviário da Polícia Militar. O chefe de Comunicação Social da Polícia Rodoviária Federal, inspetor Edson Varanda, concorda que o número de punições é baixo pelo tamanho do problema. “Mas é difícil de detectar, afinal um motorista nunca faz isso na presença de uma viatura”, argumenta. “E não temos condição de colocar uma viatura a cada quilômetro.”

De acordo com o artigo 172 do Código de Trânsito Brasileiro, é infração média “atirar do veículo ou abandonar na via objetos ou substâncias”. O motorista que fizer isso está sujeito à multa de R$ 85,13 e à perda de quatro pontos na habilitação.

Na opinião do advogado Cyro Vidal Soares da Silva, presidente da Comissão de Assuntos e Estudos Sobre Direito de Trânsito da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) e ex-diretor do Detran, só com punições severas os porcalhões deixarão de sujar as rodovias. “O único meio com o qual se consegue uma certa disciplina é aplicando multa”, diz. Ele defende um aumento no valor da punição. “E a multa deveria passar de média para grave ou gravíssima, com o veículo recolhido para inspeção”, defende. “Aí quero ver o cidadão se arriscar a jogar uma latinha pela janela do carro.”

Há países em que a pena é bem mais rigorosa para quem comete tal infração. Em Cingapura, a multa é de US$ 630 e dobra em caso de reincidência. O sujeito ainda é obrigado a assistir a vídeos educativos e a passar um dia prestando serviços como gari.


Domingo, 18 de janeiro de 2009

30 de jan. de 2009

Parcerias com ONGs garantem reciclagem

SUJEIRA NAS ESTRADAS

Está na reciclagem a saída para a montanha de lixo retirada diariamente das estradas. Boa parte das concessionárias mantém parcerias com ONGs e cooperativas de reciclagem para que o lixo recolhido nas rodovias tenha um fim ecologicamente correto.

É o caso do Instituto Recicle, ONG que desde 2006 realiza projetos com a Ecovias, concessionária responsável pelo Sistema Anchieta-Imigrantes. “Sensibilizamos os moradores do entorno das rodovias para que não joguem lixo na estrada, levamos teatro educativo às crianças e ensinamos adultos a reaproveitar o lixo, transformando, por exemplo, papel em artesanato”, explica a coordenadora de Gestão Ambiental da ONG, Edilane Nogueira.

As 147 toneladas de lixo recolhidas mensalmente pela Ecovias passam por triagem. A concessionária encaminha o que é reciclável para quatro cooperativas. É uma iniciativa comum a boa parte das empresas que operam em São Paulo. “Todo dia recebemos dois caminhões carregados de lixo coletado nas estradas”, confirma Oscar Vieira Neto, coordenador da Cooperativa Renascer, de Tatuí, parceira da concessionária SPVias há dois anos.


Domingo, 18 de janeiro de 2009

29 de jan. de 2009

Por mês, 900 caminhões de lixo são retirados das rodovias paulistas

SUJEIRA NAS ESTRADAS
Detritos aumentam o risco de acidentes, prejudicam a drenagem das pistas e causam mortes de animais

Todos os meses, as concessionárias que administram 4,3 mil quilômetros da malha rodoviária paulista retiram cerca de 900 caminhões cheios de lixo das estradas. O levantamento, realizado pela Agência Reguladora de Transporte (Artesp) a pedido do Estado, dá uma ideia do tamanho do problema causado por porcalhões que, ao viajar, parecem se esquecer de levar a civilidade junto com as malas.

“Nesta época do ano, por causa das férias, recolhemos 20% a mais de lixo”, revela Artaet Martins, assessor de Qualidade, Meio Ambiente e Responsabilidade Social e Empresarial da Ecovias. A média mensal de detritos retirados das estradas pela concessionária, que administra as rodovias Anchieta e Imigrantes, é de 147 toneladas – 30% a mais do que dois anos atrás.

A Artesp recebe relatórios de atividades das 12 concessionárias que atuam no Estado de São Paulo. Um dos itens que aparece nesse material é a quantidade de lixo recolhido. Não há uma padronização – metade das empresas informa em volume, metade em peso, o que impossibilita uma estatística total consolidada. A média mensal de 2008, nas rodovias paulistas sob concessão, foi de 406,87 toneladas e 3.874,57 m³.

De acordo com a Ecovias, o perfil de quem suja as rodovias mudou. “Há dois anos, 60% da sujeira era depositada por moradores de comunidades próximas”, diz Martins. Assim, no acostamento era comum que fossem encontrados móveis velhos e detritos domésticos. “Hoje, a maior parte do lixo é jogada por ocupantes de veículos.”

As consequências podem ser desastrosas. “O lixo acumulado aumenta o risco de acidentes e obstrui a drenagem das rodovias”, explica Odair Tafarelo, gestor de Atendimento da AutoBAn, que administra as rodovias Anhanguera e Bandeirantes. Há ainda um efeito colateral: a morte de animais. “São atraídos pelos odores de restos de comida e acabam atropelados”, conta Martins, da Ecovias. “Em 2006, eram 120 animais mortos por mês no Sistema Anchieta-Imigrantes. Hoje são 190.” Desses, 80% são cães.

Pelo lado das concessionárias, há ainda um ônus financeiro. “Só para recolher o lixo diariamente gastamos R$ 350 mil por mês”, diz Martins. “Investimos R$ 70 mil por mês na limpeza das rodovias”, afirma Antonio Mozelli, gerente de Conservação Rodoviária e Meio Ambiente da SPVias, que administra 516 quilômetros em trechos das Rodovias Castello Branco e Raposo Tavares, entre outras.

Esse caro trabalho precisa ser constante. “Pelo edital da concessão, temos a obrigação de manter a rodovia bem conservada”, explica Mozelli. A SPVias divide sua malha viária em seis lotes, para organizar a operação. Em cada um deles ficam oito funcionários de limpeza e um caminhão. O lixo recolhido é depositado em pontos chamados por eles de “unidades de conservação”. “Ali fazemos uma pré-seleção, separando o que é reciclável e o que vai para lixões”, diz Mozelli.

Cinco caminhões e 58 funcionários cuidam da limpeza do Sistema Anhanguera-Bandeirantes. “Os agentes catam o lixo e acondicionam em sacos plásticos que ficam na beira da rodovia. Em seguida passa um caminhão e recolhe”, conta Tafarelo, da AutoBAn. Os detritos ali recolhidos são encaminhados para dois lixões – um no km 33 da Rodovia dos Bandeirantes, outro em Limeira.

A Ecovias divide seus funcionários em duas equipes: uma mais próxima do litoral e outra mais perto da capital. Cada grupo conta com 40 pessoas. “O lixo é recolhido e vai para uma central de resíduos onde a gente faz a primeira triagem”, relata Martins. “Temos parcerias com quatro cooperativas de reciclagem em São Bernardo do Campo e Diadema e mandamos esse material para lá.”

A malha rodoviária paulista sob concessão responde por 68% dos deslocamentos intermunicipais no Estado. A Secretaria dos Transportes não tinha dados consolidados sobre o lixo recolhido nas outras rodovias.


Domingo, 18 de janeiro de 2009

28 de jan. de 2009

A face afro de um bairro italiano

SOCIEDADE
Livro recém-lançado resgata a origem do Bexiga e mostra a importância da população negra em sua formação

Reconhecido como uma pequena Itália dentro de São Paulo, o bairro do Bexiga recebeu grandes levas de ex-escravos. "É um pedaço da África", definia reportagem do jornal Correio Paulistano em 1907. Este viés poucas vezes abordado é tema do livro Bexiga - Um Bairro Afro-Italiano (Editora Annablume, 107 páginas, R$ 20,00), recém-lançado pelo jornalista e professor universitário Márcio Sampaio de Castro.

Não é de hoje que o assunto chama a atenção de Castro. "Sou de família negra e meu pai foi criado no Bexiga. Isso sempre me intrigava, pois para mim ali era bairro de italianos", conta. Ele debruçou-se sobre o tema durante o seu mestrado, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em 2006. O livro recém-lançado é consequência dessa pesquisa.

REDUTO AFRO
De acordo com o jornalista, houve dois momentos em que a população negra se instalou ali. "No início do século 19, a região às margens do Córrego Saracura foi ocupada por um quilombo", afirma. O córrego passava onde hoje é a Avenida 9 de Julho.

Os escravos refugiados viviam no mesmo local em que, atualmente, funciona a escola de samba Vai-Vai. "Isso foi tão forte que até os anos 60 ali era conhecido como quadrilátero negro ou pequena África", exemplifica.

Nessa época, a região ainda era só pasto e mato. O bairro do Bexiga nasceu, oficialmente, em 1878, quando o proprietário rural Antônio José Leite Braga começou a lotear suas terras - o imperador Dom Pedro II chegou a lançar a pedra fundamental de um hospital para o novo bairro, mas a obra nunca saiu do papel.

Uma outra leva populacional negra veio para São Paulo no final do século 19. Libertados, os ex-escravos saíram das fazendas e acabaram se instalando nos endereços preteridos pelos paulistanos.

"Enquanto no Rio, essa população foi para os morros, aqui ela procurou as regiões de várzea, de baixadas", explica Castro. Como eram áreas que sofriam constantemente problemas de alagamento, não tinham valor imobiliário. Os negros acabaram indo para o Bexiga, o Cambuci, a Barra Funda e a Casa Verde, sempre às margens de córregos.

Ao mesmo tempo, a capital paulista recebeu os imigrantes italianos. Motivados pelo barato preço dos lotes, os calabreses acabaram se estabelecendo no Bexiga. "Os terrenos custavam pouco e cabiam no bolso dos imigrantes", justifica o pesquisador. "O calabrês veio com a ideia de ser independente, montar seu próprio negócio."

O bairro ficou conhecido como reduto italiano. "Procurou-se construir a ideia de uma São Paulo mais europeia. Assim não interessava ter uma associação com a negritude", acredita Castro. "Os negros passaram a ser vistos como atraso. A mídia ajudou nesse processo."

Graças a algumas manifestações culturais, a herança negra sobreviveu. É o caso da escola de samba Vai-Vai, que ocupa o espaço que 200 anos atrás foi quilombo. Ela foi criada em 1930, como dissidência do grupo carnavalesco Cai-Cai.

E também da Pastoral Afro da Paróquia de Nossa Senhora da Achiropita, criada em 1988, quando se comemorava o centenário da Abolição dos Escravos. "Nosso objetivo é resgatar as tradições dos negros católicos", afirma a enfermeira Valéria do Carmo Silva, uma das coordenadoras da pastoral.Dos 30 integrantes, poucos são negros - ela é. "São dois orientais, quatro brancos, oito negros... O resto é mestiço", conta.

Conhecida por sua tradicional festa italiana, a Achiropita com sua pastoral afro é o retrato mais nítido dessa característica mista do bairro. "Mas, nas missas, noto que os negros ainda são minoria", observa Valéria.

Ao longo do calendário litúrgico, os membros da pastoral organizam missas, casamentos e batizados afro e celebram os santos negros. "No ano passado, também oferecemos um curso profissionalizante que ensinava a fazer bijuterias e a pintar tecidos", diz a enfermeira. Em 2001, o trabalho da pastoral afro da paróquia dos italianos foi tema de outro livro, Axé, Madona Achiropita!, da jornalista Rosangela Borges, publicado pela Editora Pulsar.


Terça-feira, 6 de janeiro de 2009

27 de jan. de 2009

Brasil às moscas

CIDADE
Tradicional avenida paulistana está com 15% de seus imóveis vazios

Basta um passeio rápido pelos 2,5 quilômetros da Avenida Brasil, no Jardim América, para notar a abundância de placas de imobiliárias: de cada sete imóveis da via, um está disponível para venda ou locação. Uma média de 15%, mais que o dobro da encontrada no restante da capital. Os altos preços cobrados pelos proprietários, as restrições da Lei de Zoneamento e a idade dos imóveis são as causas da baixa procura. "Quando analisam a relação custo-benefício, os interessados optam por instalar seus escritórios na região da Paulista, por exemplo", afirma Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). O aluguel de um casarão na Brasil chega a custar 80 000 reais mensais. Para se tornar dono do imóvel, então, é preciso assinar um cheque de até 10 milhões de reais.

Antes estritamente residencial, a Avenida Brasil atualmente é ocupada por quase duas dezenas de clínicas e laboratórios médicos, além de escritórios. Estão ali uma unidade do Hospital Albert Einstein e consultórios como o do cirurgião plástico Munir Curi, o do especialista em reprodução humana Roger Abdelmassih e o da dermatologista Ligia Kogos. "A região vem se caracterizando por ter centros médicos de boa qualidade", acredita Abdelmassih, que paga mais de 25 000 reais de aluguel por uma casa de 1 600 metros quadrados. "É um lugar tradicional e de fácil acesso a quem vem de fora", diz Ligia, que há seis anos atende em um sobrado construído no início do século passado. A avenida também é o endereço de dez lojas de material para construção, todas camufladas como showrooms (a Lei de Zoneamento permite apenas serviços no local, restringindo o comércio a alimentação, móveis, farmácias, antiquários e bancas de revistas).

Quando foi urbanizado, em 1915, o corredor era uma das vitrines da São Paulo que se modernizava. Ganhou amplos canteiros centrais, ornamentados com palmeiras, tipuanas e paineiras, e assumiu o posto de principal via do Jardim América, loteamento da companhia inglesa City planejado pelo arquiteto e urbanista Barry Parker. Foi lá que ocorreu uma das primeiras provas automobilísticas da cidade, em 1936, vencida pelo lendário italiano Carlo Pintacuda. O evento terminou em tragédia: a também famosa corredora francesa Hellé-Nice perdeu o controle de seu Alfa Romeo e matou quatro espectadores. Outros 22 ficaram feridos. Algumas décadas depois, muitos moradores migraram para ruas do miolo dos Jardins, onde o barulho causado pelo trânsito é menor e a privacidade, maior.

Se as condições atuais continuarem espantando interessados, os casarões vazios devem provocar a desvalorização de seu entorno. Enquanto um imóvel leva em média cerca de três meses para ser negociado em São Paulo, na Brasil esse processo tem demorado mais de seis. "A tendência é que, a médio prazo, os preços caiam", acredita Pompéia.


Quarta-feira, 12 de abril de 2006

26 de jan. de 2009

Os nossos Sherlocks

POLÍCIA
Como funciona o Instituto de Criminalística, cujo laboratório de DNA ajuda a identificar as vítimas do acidente de Congonhas

exames de DNA depois de excluídas todas as outras possibilidades de identificação: reconhecimento visual, impressões digitais e arcada dentária", explica a perita Norma Bonaccor-so, há dez anos na equipe. "Mas decidimos iniciar paralelamente esse processo para tentar minimizar o sofrimento dos familiares." Um andar acima, numa sala que em nada lembra os cenários de CSI, série campeã de audiência nos Estados Unidos sobre os bastidores de um laboratório de perícia criminal, funciona o Núcleo de Engenharia, ou-tro departamento envolvido com o acidente do dia 17. As investigações a respeito das condições do avião e do aeroporto são de competência federal. Quatro engenheiros do IC, no entanto, foram acionados para colher provas para o inquérito aberto pelo 27º Distrito Policial da capital, que apura as responsabilidades pelas 200 mortes. Os peritos do departamento nunca estiveram diante de uma tragédia dessas dimensões, a maior da história da aviação brasileira. Mas eles acompanham muitos outros casos – em média, cinqüenta por mês. Atualmente, por exemplo, ainda investigam o desabamento da Estação Pinheiros do metrô, em janeiro, e o acidente com uma grua que matou quatro operários na Marginal Pinheiros, em junho.

Estruturado em dezenove núcleos, o IC atua como auxiliar do Judiciário. Os 1 100 peritos que trabalham ali elaboram, juntos, 2 milhões de laudos por ano. Faz parte da rotina deles analisar objetos e locais. Ou seja, buscam evidências o tempo todo. "Nosso trabalho ajuda a prender os culpados e libertar os inocentes", diz Sumara Antonio Quixadá, há 21 anos no Nú-cleo de Balística. Para se tornar um perito e embolsar um salário inicial de 4000 reais, é preciso ter formação superior (em qualquer área), ser aprovado em um concurso público e fazer um curso preparatório de onze meses na Academia de Polícia. O instituto foi fundado em 1924 – chamava-se Delegacia de Técnica Policial – com a missão de aplicar métodos científicos no esclarecimento de crimes. Desde 1998, com a criação da Superintendência da Polícia Técnico-Científica, o IC está diretamente ligado ao Instituto Médico Legal – ambos dividem um orçamento anual de 157 milhões de reais vindo da Secretaria Estadual de Segurança Pública, mais 800000 reais do governo federal. Verba nem sempre suficiente. Apesar dos esforços dos funcionários, a estrutura física do IC é precária. Muitas salas são improvisadas, algumas caixas de papelão fazem as vezes de armário e há peritos que reclamam da falta de material. "Não temos sequer luvas de couro para trabalhar com destroços", diz Antonio Nogueira Neto, do Núcleo de Engenharia. "No caso de Congonhas, tivemos de usar máscaras emprestadas da Defesa Civil."

À espera da Aeronáutica
Pouco mais de uma hora após a tragédia, o engenheiro Lourenço Trapé Neto, do Núcleo de Engenharia, chegou às proximidades do Aeroporto de Congonhas. "Ainda não haviam começado a resgatar os corpos", lembra. Ele e outros três dos 24 peritos de sua equipe estão no caso. Munidos de câmera fotográfica, vistoriaram o prédio atingido, os destroços do avião e toda a situação da área ao redor. Como se trata de um acidente aéreo, agora precisam aguardar por um relatório da Aeronáutica, prometido para daqui a seis meses. "Não temos acesso à caixa-preta, por exemplo", diz. "Por isso, dependemos dessa investigação para concluir a nossa perícia."

Mutirão para analisar mais de 100 amostras
A cada seis horas, chegam ao laboratório de DNA do Instituto de Criminalística mais amostras dos corpos não identificados do maior desastre aéreo já acontecido no Brasil. Até a manhã da última quinta (26), eram mais de 100. "Essa etapa do exame torna-se menos complexa quando conseguimos extrair o DNA de células do sangue", conta a perita Norma Bonaccorso, que retornou antecipadamente das férias para coordenar as pesquisas. Em casos de carbonização, os peritos normalmente analisam os ossos. "Recebemos um fragmento e precisamos prepará-lo, em banho-maria, para isolarmos a célula", diz. "A partir daí, quebramos as membranas da célula, extraímos o DNA e comparamos com o de um familiar." No dia 21, foram coletadas amostras de sangue de 84 familiares de vítimas. Exames feitos com ossos costumam levar, na mais otimista das hipóteses, uma semana para ficar prontos. Devido às condições atípicas dessas amostras, no entanto, a equipe não se arrisca a estipular prazo para a conclusão do trabalho.

Detalhistas e boas de tiro
Quando olham para um projétil, em casos de crime, todos os dezenove peritos do Núcleo de Balística enxergam detalhezinhos que passariam despercebidos para os leigos. "É como uma impressão digital", conta Sumara Antonio Quixadá, que às vezes chega a ficar seis horas consecutivas de olhos grudados nas lentes de um dos três microscópios do departamento. "Depois de disparado, um projétil nunca é igual a outro." A caçula da equipe, Fabiana Paiva Pires, 28 anos, começou a trabalhar em janeiro e ainda tem muito o que aprender. Mas não se intimida. "Gosto de armas desde criança", afirma, com cinco band-aids nos dedos machucados de tanto manuseá-las. "Trabalhar aqui é um sonho, pois chego a dar 200 tiros por dia." No núcleo há um espaço destinado a esses disparos. São necessários para testar as armas apreendidas, muitas vezes em más condições, e comprovar o uso das mesmas nos crimes investigados. Informações importantes que, como tudo no IC, se transformam em laudos.

Oitocentos computadores para analisar
No fim da década de 60, o adolescente Sérgio Shoiti Kobayashi devorava livros de ficção científica e sonhava com supercomputadores. Desde janeiro, ele dirige o Núcleo de Perícias de Informática, onde trabalham doze peritos. "Tenho cerca de 800 computadores na fila de espera para analisar", diz. "Cabe tanta informação neles que encontrar indícios é como achar agulha em palheiro." Estão com a equipe, há um mês, os 25 discos rígidos dos computadores utilizados pelos alunos que invadiram a reitoria da USP, durante a greve estudantil ocorrida neste ano. Dentro dos discos, há atas de reuniões, textos de panfletos e outros documentos. "Eles apagaram diversos arquivos, mas nós os estamos recuperando", afirma Kobayashi. "Todos os nomes envolvidos constarão no laudo." A perícia deve ser concluída dentro de um mês.


Quarta-feira, 1º de agosto de 2007

25 de jan. de 2009

Onde tudo começou

HISTÓRIA
No dia do aniversário da cidade, é lançado livro que mostra as dificuldades enfrentadas pelo grupo de jesuítas que fundou São Paulo

Pode parecer exagero, mas o escritor, jornalista e historiador Hernâni Donato levou setenta anos para escrever Pateo do Collegio: Coração de São Paulo (Loyola; 280 páginas; 90 reais), com lançamento previsto para sexta (25), durante as comemorações do aniversário da cidade. Isso não quer dizer que Donato, nascido em Botucatu em 1922 e autor de outros oitenta livros, seja moroso em sua produção. Mas mostra sua obsessão por temas históricos que lhe aguçam a curiosidade e a capacidade de tocar vários projetos em paralelo, sem abandoná-los pelo caminho. O interesse pelo centro histórico paulistano surgiu tão logo o futuro escritor, aos 15 anos, se mudou para São Paulo. Seu primeiro emprego foi no jornal Correio Paulistano, que funcionava na esquina da Rua Líbero Badaró com o Largo de São Bento. "Todas as noites, após o trabalho, os jornalistas costumavam se reunir em um dos quatro cafés que havia no centro da cidade", lembra. Para chegar até eles, obrigatoriamente passavam, a pé, pelo Pátio do Colégio. "Desenvolvi uma sensibilidade telúrica por aquele espaço", diz. "Então nasceu a vontade de um dia escrever sobre ele."

De lá para cá, sempre que encontrava algo que pudesse servir para a obra, Donato anotava em uma das centenas de fichinhas de papel que se acumulam em sua gaveta. Dessa extensa apuração nasceu um livro recheado de curiosidades históricas paulistanas, tendo como foco o Pátio do Colégio, marco da fundação da cidade. "Ainda hoje continuo descobrindo coisas", afirma. "E fico impressionado como o Pátio é um ser vivo, onde tudo acontece." No livro, Donato descreve como foi que, após uma penosa caminhada a partir de São Vicente – em alguns trechos, era preciso engatinhar –, os missionários jesuítas elegeram aquele ponto no Planalto de Piratininga, favorecido geograficamente, para ser sede da aldeola. O padre Manuel da Nóbrega teria exclamado que a terra era a melhor do mundo. E José de Anchieta profetizado que ali estariam as portas para o futuro do Brasil.

Os religiosos não tardaram a se aliar com o cacique Tibiriçá. "Se não fosse pela ajuda do líder indígena, nada teria existido", acredita Donato. Aos poucos, Anchieta e companhia começaram a incutir nos índios os princípios cristãos, convencendo-os a abandonar práticas como o canibalismo e os rituais de pajelança. Não sem muita resistência. Em batalhas entre tribos era comum que, seguindo os homens armados, as mulheres carregassem tachos para preparar o prato antropófago com o inimigo morto. Para a história, a missa celebrada em 25 de janeiro de 1554, dia de São Paulo, marca a fundação da cidade. Ali no Pátio havia, construídas de pau-a-pique, uma igrejinha, uma escola e uma cabana que servia de abrigo a cerca de vinte religiosos.

Um ano depois da fundação, a aldeia contava com 82 habitantes. Hoje, cerca de 1 milhão de pessoas passam, diariamente, pelos arredores do Pátio, cuja forma atual, inaugurada em 1979, é a de sua quarta construção. Apesar da pequena população, os problemas eram muitos. Padres faziam as vezes de médicos e farmacêuticos. Anchieta realizava sangrias em índios doentes e partos – batizando mãe e filho como cristãos. À mesa, folhas de árvores serviam como guardanapos e farinha de mandioca e abóbora eram quase os únicos pratos disponíveis. De certa forma, esses obstáculos fortaleciam a figura de José de Anchieta. "Ele se destacou por suas atividades como intelectual, professor, médico, poeta e confessor", diz Donato. "Mas São Paulo nasceu de um fenômeno complexo, coletivo e múltiplo de desenvolvimento ao longo do tempo."

* Lançamento do livro Pateo do Collegio: Coração de São Paulo. Pátio do Colégio. Rua Boa Vista, s/nº. Sexta (25), às 16h. Metrô Sé.


Quarta-feira, 23 de janeiro de 2008