30 de set. de 2009

Lista registra 6 museus ''fantasmas''

CULTURA
Embora instituições só existam no papel, constam como ativas e atreladas à Secretaria de Estado da Cultura

Dos 49 museus indicados pela Secretaria de Estado da Cultura como "em fase de municipalização", 12 estão fechados e 6 são museus "fantasmas". Embora só existam no papel, essas instituições aparecem como ativas e atreladas à pasta no cadastro das unidades administrativas disponível no site da Secretaria de Estado da Fazenda.

Fantasma, por exemplo, é o Museu Histórico, Artístico e Folclórico Luiz Gonzaga, de Embu. "Foi desativado em 1993, por falta de pagamento do aluguel do prédio", conta o atual secretário municipal da Cultura, Paulo Oliveira da Silva. "O acervo se espalhou. Há quadros no Centro Cultural, no Museu de Arte Sacra e algumas peças no prédio da prefeitura. E, com certeza, sumiu alguma coisa."

Para a lamentação dos que tinham ligação com o espaço, Silva diz que não tem como reimplantá-lo. "Fico muito triste porque as obras foram para todo lado e muitas peças desapareceram", desabafa a artista plástica Raquel Trindade, cujo pai foi um dos fundadores do museu, em 1968. "É a nossa cultura sendo destroçada."

A coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura, Claudinéli Moreira Ramos, admite que houve alguns casos de sumiço de peças, mas afirma que não chegou ao seu conhecimento nenhuma história de acervo completamente perdido. "De qualquer forma, vamos estudar detalhadamente cada situação."

Em Campinas, o Museu Histórico e Pedagógico Campos Salles, foi simplesmente desalojado após a interdição, em 1996, do Palácio da Mogiana, onde a instituição funcionava. O acervo foi então recolhido e trazido à capital, onde repousa, numa reserva técnica da Secretaria da Cultura. Uma surpresa para própria Secretaria Municipal da Cultura que não tinha informação do paradeiro da coleção.

"Ao menos desde 1992, quando cheguei à secretaria, posso dizer com segurança que a prefeitura não teve notícia do acervo", afirma o coordenador do Departamento de Extensão Cultural de Campinas, Américo Villela, responsável pelos museus locais. "Até aqui, ninguém falou nada de municipalização, muito menos de um lugar que nem existe."

Em São Joaquim da Barra, a desinformação também é geral. De acordo com a prefeitura, o Museu Histórico e Pedagógico Barão de Pinto Lima teria sido extinto há cerca de 20 anos. "Algumas coisas estão no almoxarifado, mas a maior parte se perdeu", conta o assessor de Relação com a Comunidade, José Renato Fiori. "Nunca tive acesso a essas peças", admite a responsável pelo Setor de Educação e Cultura, Carmem de Freitas e Silva. "Também não me falaram nada sobre esse processo de municipalização."

Ainda não há destinação definida para o acervo dos museus que não tiveram continuidade - geralmente peças de valor local, sobre costumes das cidades do interior entre os séculos 19 e as primeiras décadas do século 20. "Vamos analisar e avaliar o valor de cada patrimônio. Existem museus que receberam doação de todo tipo de material, sem referência ou importância histórica", diz Claudinéli Moreira Ramos.

ESPAÇO REAPROVEITADO
Além das instituições que simplesmente sumiram, há museus cujos acervos foram incorporados por outros equipamentos de cultura municipais. Em Mogi-Guaçu, Monte Mor e Bauru, as coleções dos museus dos municípios - Dr. Sebastião José Ferreira, Dr. Carlos de Campos e Morgado de Matheus, respectivamente - foram anexadas a outras instituições e, hoje, os administradores não diferenciam mais o acervo. Nos três casos, os museus tiveram de ceder espaço para órgãos públicos - escritórios da prefeitura, departamento de águas e esgoto, uma farmácia popular -, quando foi trocada a administração.

Para Simona Misan, doutora em História Social pela USP - cuja tese foi sobre museus locais -, o fato de o governo planejar a municipalização de uma instituição que só existe no papel pode incentivar os municípios a recriar museus. "Vai servir para relembrar uma história que já era praticamente esquecida, ou, pelo menos, para regularizar a situação e extinguir de vez", diz. "Cada cidade precisa avaliar a necessidade de ter ou não um museu."

em parceria com Vitor Hugo Brandalise.


Domingo, 9 de agosto de 2009

29 de set. de 2009

Na transição, oficinas e acompanhamento

CULTURA
Haverá 190 visitas técnicas a cidades até o fim de 2010

Antes que o processo de municipalização seja finalizado, as cidades terão de aprovar leis que garantam a destinação de recursos e a criação de equipes técnicas próprias para os museus que serão incorporados – atribuições hoje inexistentes na maior parte. “O município precisará dotar o museu com orçamento, recursos humanos e equipe própria. Não iremos encerrar nenhum processo sem que esses requisitos sejam cumpridos”, garante a coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura, Claudinéli Moreira Ramos.

Nesse meio tempo, a promessa é de que todo o acervo dos museus histórico e pedagógicos do Estado seja checado e regularizado – hoje, o governo não sabe o número total de peças existentes, incorporadas desde a década de 1950, quando as instituições foram criadas. “Em Piracicaba (onde o Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes acaba de ser reformado pelo Estado), por exemplo, vamos acompanhar de perto o processo até dezembro.”

Na tentativa de uma transição administrativa bem-sucedida, o governo do Estado anuncia que realizará oficinas preparatórias e visitas técnicas periódicas às cidades. Estão planejadas 54 oficinas e 190 visitas aos municípios até dezembro de 2010 – prazo estipulado para a finalização do processo de municipalização, quando se encerra o contrato com assessoria técnica especializada, no valor de R$ 963 mil.

Nas oficinas, serão enfatizados aspectos como capacitação de profissionais, documentação e inventário dos acervos e criação de plano museológico para as instituições. “São medidas que nos propomos a realizar para auxiliar as cidades a criar espaços dinâmicos, que não sirvam como simples depositários da história local, mas para reflexão sobre ela”, diz a museóloga Cecília Machado, diretora do Sistema Estadual de Museus (Sisem). “Não poderemos formar museólogos, mas sim capacitar equipes para a gestão e o desenvolvimento das atividades de cada lugar.”

O Estado também vai coordenar a realização de audiências públicas sobre a municipalização em cada cidade. “Será nelas que as comunidades vão decidir a cara que esperam para os museus”, explica Cecília. “Vamos estimular a criação de conselhos para as instituições e também a criação de associações de amigos, que servem basicamente para captar recursos.” Além disso, afirma a museóloga, o Sisem estará à disposição para fornecer exposições itinerantes e “orientar em questões técnicas específicas” os municípios interessados.

‘LAVAR AS MÃOS’
Entretanto, nem todos os agentes culturais do interior têm recebido bem tais notícias. “O Estado decidiu, por lei, que vai lavar as mãos em relação aos museus do interior. Aos poucos, fica mais indolente”, acredita o secretário de Cultura de Itapetininga, Fábio Sacco. Ali existe o Museu Histórico e Pedagógico Dr. Fernando e Júlio Prestes de Albuquerque, que quase desapareceu na década de 1990. “Historicamente, o Estado já se manteve a distância e agora vai para ainda mais longe. É uma situação cômoda.”

Para os responsáveis pelo programa, as medidas vão incentivar a aproximação das comunidades. “Não estamos passando a responsabilidade. Vemos como uma necessidade da comunidade poder administrar o próprio equipamento cultural. O Estado fica longe, é difícil saber os anseios de cada comunidade”, defende a diretora do Sisem, Cecília Machado. “Faz mais sentido que cada município decida o que deve ficar exposto, a programação do museu, de forma livre e desburocratizada.” Trata-se, nesse caso, de questão de política cultural. “O processo vem de uma visão de que não cabe ao Estado executar as atividades diretamente, mas sim garantir condições para que elas sejam executadas”, resume a coordenadora Claudinéli Moreira Ramos.

em parceria com Vitor Hugo Brandalise.


Domingo, 9 de agosto de 2009

28 de set. de 2009

''Não há interesse em museus só locais''

CULTURA
Estado ainda reforma instituições, mas acelera a municipalização

Se depender da vontade da atual gestão, a partir de 2011 nenhum museu em São Paulo será administrado pela Secretaria de Estado da Cultura. A meta é que todos os 67 museus públicos estaduais atrelados à pasta estejam sob outro comando. Os 18 principais - 14 na capital, incluindo a Pinacoteca do Estado e o Museu da Língua Portuguesa - já são geridos por organizações sociais. Os 49 restantes - todos de fora da capital - passam por um processo de municipalização que deve ser concluído até o fim do próximo ano. "Não há interesse do Estado em manter museus que têm relevância só local", afirma o secretário de Cultura, João Sayad.

A entrega do Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, em Piracicaba, anteontem, mais do que devolver à população (após um ano e meio de obras) a instituição restaurada e reformada - ao custo de R$ 747,2 mil -, simboliza o primeiro passo do processo de municipalização. O museu deixa de ser estadual, embora haja um compromisso de acompanhamento nas próximas etapas.

Nesse processo terão o mesmo destino o Museu Histórico e Pedagógico Conselheiro Rodrigues Alves, de Guaratinguetá, e a Casa de Cultura Paulo Setúbal, de Tatuí, que serão entregues após reformas similares - e orçadas praticamente nos mesmos valores. Essa melhoria, entretanto, não acontecerá nos demais museus em processo de municipalização. "Não existe plano de reformar mais nenhum", afirma o secretário. "Nosso plano é municipalizar. Não há recurso para, antes, reformar todos os museus."

Não é a primeira vez que se fala em municipalizar os museus estaduais paulistas. Criados a partir de 1956 - com o objetivo de "preservar a história da cidade (onde se localiza) e do patrono (nome da personalidade que dá nome à instituição)" -, os acervos dos museus começaram a ser repassados aos municípios em 1998, a partir de um decreto do governador Mário Covas. "A função do Estado é definir a política pública, a vocação e firmar parcerias", diz a coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura, Claudinéli Moreira Ramos. "O processo vem de uma visão de que a função do Estado não é de executar as atividades culturais, mas garantir condições para que sejam executadas." A ideia da secretaria, agora, é rever, regularizar e concluir todos os processos em andamento - nem todos os municípios, porém, concordam com a atual política e dizem que o governo "lava as mãos".

RESSALVAS
Especialistas ouvidos pelo Estado apoiam a política, mas fazem ressalvas. "Os museus vivem situação difícil e municipalizar pode ser a solução", diz o historiador Marco Antonio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro Breve História de São Paulo, ainda inédito. "Entretanto, é preciso que haja uma proposta consistente, pois um museu só é bom quando interessa à população." Para o historiador Paulo Henrique Martinez, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e organizador do evento "Museus Municipais e Políticas Públicas", a municipalização pode aproximar a população local do museu. "Mas é preciso deixar o acervo atraente, dinamizando-o com eventos e exposições temporárias. Assim, o museu se torna interessante para pequenos municípios, movimentando o turismo e o comércio."

Essa é a receita da diretora de Cultura de São José do Rio Pardo, Lúcia Vitto. Sob seu comando está a Casa de Cultura Euclides da Cunha - em processo de municipalização - e o Museu Municipal Rio-Pardense. "Temos um evento no museu pelo menos a cada dois meses", conta. "As pessoas vêm e se apaixonam pelas peças que estão expostas. Isso faz a molecada gostar de História."

em parceria com Vitor Hugo Brandalise.


Domingo, 9 de agosto de 2009

27 de set. de 2009

Na escola, no trabalho, no condomínio ou no lazer, multas serão repassadas a fumantes

CIGARRO BANIDO - PUNIÇÃO

Desde a zero hora, os infratores da lei antifumo em São Paulo estão sujeitos a multas de R$ 792,50 a R$ 1.585. Apesar de o governo de São Paulo ter afirmado que o objetivo não é penalizar os dependentes de nicotina e, sim, quem não coibir o cigarro em ambientes de uso coletivo, fechados ou parcialmente fechados, o fumante pode ficar com a conta. Isso no trabalho, no condomínio, na escola e até na hora de lazer.

Para o juiz da 20ª Vara do Trabalho de Brasília, Rogério Neiva Pinheiro, se o empregado causar prejuízos, o empregador terá direito à reparação. "Até com desconto no salário", diz ele, que não descarta outras sanções, incluindo demissão por justa causa. E há o outro lado da moeda: os empregados devem exigir direitos. "O trabalhador pode pedir rescisão por justa causa e até indenização por não trabalhar em um ambiente livre do fumo."

Segundo Luiz Tarcísio Ferreira, jurista especializado em Direito Público, se as multas forem aplicadas ao estabelecimento por fumo em local impróprio (como escadas e corredores), o funcionário poderá ser responsabilizado. O gerente da Associação Comercial Empresarial do Brasil, Fabrízio Quirino, também acredita que "os empreendimentos vão repassar as penas ao funcionário."

E quem já começou a passar da teoria para a prática foram as administradoras de condomínios, com aval do Sindicato da Habitação (Secovi), que orientaram os residenciais a estabelecer punição aos fumantes, em assembleias - além de livrar os ambientes comuns de cinzeiros. Os clubes devem seguir o mesmo caminho. "Acho bom que haja esse entendimento (do repasse da multa)", diz a presidente da Associação de Clubes Esportivos e Sócio Culturais, Sileni Monteiro de Arruda Rolla.

O Círculo Militar decidiu que associados flagrados fumando serão suspensos por um mês do ambiente em que estavam. Outras associações ainda discutem a medida, enquanto o Pinheiros informou que vai "esperar o comportamento dos sócios nos próximos 30 dias". Sileni, que também preside o Paineiras do Morumby, ressalta que, pelo estatuto, "o transgressor com certeza será submetido a sanções como suspensão, advertência e até expulsão, conforme o caso". Penas semelhantes, aliás, devem recair sobre funcionários públicos infratores.

ESCOLAS
Um segmento que ainda se mostra dividido é o educacional. Entre as universidades, PUC-SP e USP já definiram que vão repassar as multas tanto a funcionários quanto a alunos. Já o reitor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Paulo Antonio Gomes Cardim, informou, que "é assunto delicado e juridicamente polêmico". A rede Unip - com 24 câmpus no Estado - nem discutiu a multa. Já os Colégios Santa Maria e Dante Alighieri e a rede de idiomas Wizard, com 500 locais, só informaram ter banido o fumo há anos.

em parceria com Eduardo Reina e Fernanda Aranda.


Sexta-feira, 7 de agosto de 2009

26 de set. de 2009

Forte turbulência deixa 28 feridos na rota Rio-Houston

AVIAÇÃO
Boeing da Continental Airlines, com 179 pessoas, fez pouso de emergência em Miami

Um Boeing 767-200 da Continental Airlines, com 179 pessoas a bordo - 168 passageiros e 11 tripulantes -, enfrentou forte turbulência ontem de manhã sobre o Oceano Atlântico, deixando 28 feridos. O voo 128, que partiu do Rio com destino a Houston, Texas (Estados Unidos), foi desviado para Miami, onde fez pouso de emergência. Até as 19 horas de ontem, quatro pessoas estavam internadas em estado grave, segundo informações de autoridades locais ao jornal Miami Herald.

Pelo menos oito feridos foram levados aos Hospitais Jackson Memorial, Hialeah, Metropolitan e Mercy. Seis pessoas continuavam hospitalizadas até as 19 horas de ontem "em boas condições", segundo boletim dos hospitais. A Continental Airlines não divulgou identidade e nacionalidade dos ocupantes, mas, segundo relatos, metade era brasileira.

O avião saiu do Rio às 21h45 de domingo e deveria ter chegado a Houston às 6 horas de ontem. A turbulência ocorreu na madrugada, enquanto a aeronave sobrevoava a região entre Porto Rico e as Ilhas Turks e Caicos. Cerca de uma hora depois, às 6h35 (horário de Brasília), o avião pousou em Miami. As causas serão apuradas pela Agência Federal de Aviação dos Estados Unidos.

A turbulência, de cerca de 15 segundos, foi descrita como "momentos de queda livre". "Quem não estava usando cinto de segurança saiu do banco e bateu no teto", disse ao Estado o executivo dinamarquês Jan Lomholdt, de 43 anos, que vive no Rio. "Vi pelo menos 20 pessoas nos ares." Em nota, a empresa frisou que os sinais para apertar os cintos foram acesos.

O incidente arruinou a cabine. Boa parte da proteção plástica das luzes se quebrou. Pelo menos um banco se soltou e máscaras de oxigênio caíram. "Tudo estava nos ares. Livros, malas, garrafas, roupas, caixas. E as pessoas se seguravam como podiam", disse Lomholdt, que fraturou as costas.

O executivo contou que uma mulher, sentada perto da área da tripulação, "machucou toda a face", atingida por garrafas e vidros de perfume, com a abertura dos bagageiros. "Quem não conseguiu se agarrar bateu duas vezes: no teto e depois no chão." Um passageiro médico ajudou no atendimento.

Após a turbulência, os passageiros ficaram em silêncio. "Todos pareciam em choque", disse Bruno Louis Baker, de 13 anos, enteado de Lomholdt. Após o pouso, segundo o executivo, os passageiros foram informados de que viajariam a Houston na mesma aeronave. "Foi um absurdo. O avião estava todo quebrado, tinha gente com o pescoço imobilizado." Parte dos passageiros seguiu em outro voo e alguns ficaram em Miami.

Em nota à imprensa, o Jackson Memorial informou que os passageiros internados não gostariam de "relatar suas histórias". Por isso, "nenhuma informação específica" sobre seus estados de saúde seria divulgada.

RECORRENTE
Em 25 de maio deste ano, um voo TAM que fazia a rota Miami-São Paulo também passou por turbulência - 21 passageiros ficaram feridos. Segundo a Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos, dez pessoas entraram na Justiça pedindo indenização. Caso passageiros do voo 128 da Continental acionem judicialmente a companhia, o valor do seguro aeronáutico dos Estados Unidos é de US$ 120 mil por pessoa.

em parceria com Vitor Hugo Brandalise.


Terça-feira, 4 de agosto de 2009

25 de set. de 2009

Mapeados, 32 saraus de SP estarão em guia a ser lançado neste mês

CULTURA
Levantamento privilegiou grupos que se reúnem com periodicidade fixa - maioria fica na região central da capital

A cidade de concreto também faz poesia. Sob esse lema, a organização Poiesis - mesma instituição que administra a Casa das Rosas e o Museu da Língua Portuguesa, entre outros locais - organizou e prepara o lançamento, previsto para este mês, de um inédito folheto com os "pontos de poesia" da Grande São Paulo. O levantamento resulta de um trabalho de quatro meses do poeta Rui Mascarenhas. "Surpreendi-me muito com a diversidade temática dos saraus. Cada comunidade tende a transformar em poesia suas diferentes realidades", afirma. "O importante é que todos os grupos estimulam a produção literária."

O folheto, que será distribuído gratuitamente na Casa das Rosas e nos endereços onde ocorrem os saraus - a tiragem inicial é de 5 mil exemplares -, traz uma relação de 32 eventos com periodicidade fixa. E localiza em um mapa. É nítido, por exemplo, que a maior parte está concentrada na região central. Por outro lado, aparecem muitas iniciativas em bairros de periferia, como Cidade Tiradentes, Itaim Paulista e São Miguel Paulista, na zona leste. O mapa ainda inclui grupos das cidades vizinhas de Suzano, Guarulhos, Carapicuíba, Embu, Pedreira, Diadema e Santo André.

Em geral, os saraus são frequentados por aficionados por poesia que moram na região onde ocorrem - ou têm alguma ligação artística com os organizadores. Com o mapa publicado, espera-se que surjam, entretanto, mais figuras como o poeta Renato Palmares, de 44 anos, apelidado de "peregrino da poesia". Não é para menos: desde 2005, é assíduo frequentador de vários saraus diferentes. "Chego a participar de quatro em uma semana."

Palmares mora no Campo Limpo, zona sul. Ali perto, costuma comparecer ao Sarau do Binho - que ocorre sempre às segundas - e ao Sarau da Cooperifa - às quartas. Quinta-feira é dia de enfrentar ônibus, trem e metrô para, após uma "viagem" de 2 horas, participar do Elo da Corrente, em Pirituba, zona norte. Palmares também é figurinha fácil no Sarau Poesia na Brasa - quinzenalmente, aos sábados, na Vila Brasilândia, zona norte. "O mais importante é o movimento em si", empolga-se ele, que trabalha como produtor cultural e já teve textos publicados em quatro coletâneas de poesia. "Tenho visto muita molecada que faz poemas e se orgulha da própria existência."

O Sarau da Cooperifa, desde 2001, é um bom exemplo de como a poesia pode mexer com os moradores da periferia. Transformou-se em um evento que costuma atrair 200 pessoas a cada edição, sempre no Bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, em M? Boi Mirim. "Quem lê enxerga melhor", resume o poeta e organizador, Sérgio Vaz.

Em abril, o sarau promoveu, pelo terceiro ano consecutivo, o "Poesia no Ar", em que todos os poetas foram convidados a colocar poemas dentro de 500 balões de gás hélio. Como eles dizem, "para ninguém ficar sem poesia na cidade, o sarau chega via aérea na casa das pessoas".

E se a poesia pode vir, assim, por acaso, por que os saraus precisam nascer de forma planejada? O Sarau Elo da Corrente, de Pirituba, começou como evento de lançamento de um livro - Desencontros, do poeta Michel da Silva Ceriaco, em 2007. "Queríamos fazer uma festa, acabou virando um evento semanal de confraternização do bairro", diz a mulher, a poetisa Rachel Almeida da Silva, uma das organizadoras.

PARA TODOS OS GOSTOS
O Sarau Diverso Politeama, em Pinheiros, começou como um clubinho fechado, em 2006. "A gente se reunia na casa de amigos e apresentava as criações", conta a poetisa Barbara Leite. No ano seguinte, a ideia se expandiu e o encontro passou a ser público, em um bar. E engana-se quem pensa que só a poesia tem espaço nesses eventos. "Chegou lá é só fazer a festa: poesia, música, teatro, dança. Pretendemos estimular a comunicação entre todas as artes." Do clubinho fechado para hoje, a principal mudança foram os endereços. De lá para cá, o sarau transferiu-se cinco vezes de local. "Somos o sarau mais itinerante que existe", brinca Barbara. Nem tanto. Exemplo de nomadismo é o Sarau Portátil, outra iniciativa do gênero, que une literatura, música, cinema e teatro em bares e praças aleatoriamente.

Em dezembro, nasceu o ZAP: Zona Autônoma da Palavra, evento que ocorre uma vez por mês na Pompeia. A noite começa com a projeção de filmes, seguida pelo "microfone aberto" - em que poetas podem declamar ou ler textos. Mais tarde, o ponto alto: uma batalha poética, em que os participantes são julgados por uma comissão formada na hora. Qualquer pessoa pode participar. "É só chegar e se inscrever", diz a poetisa Roberta Estrela D?Alva, uma das organizadoras. O campeão da noite leva um kit com livros, CDs e DVDs.

Mas não são só novas - e moderninhas - iniciativas que roubam a cena poética paulistana. Exemplo de tradição é a Casa do Poeta Lampião de Gás de São Paulo, que promove saraus desde 1948. Atualmente, os encontros acontecem quinzenalmente, no auditório da Associação Paulista de Imprensa, na Liberdade. "Provavelmente somos o sarau, em atividade, mais antigo da cidade", acredita a vice-presidente da entidade, poetisa Analice Feitoza de Lima.


Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

24 de set. de 2009

Uma casa onde o tempo insiste em parar

CULTURA
Imóvel que pertenceu a Guilherme de Almeida tem preservados objetos pessoais do poeta e vai virar museu e centro de estudos

Percorrer os imponentes cômodos do sobrado de 230 m² onde viveu o poeta, advogado, jornalista, crítico de cinema, ensaísta e tradutor Guilherme de Almeida (1890-1969) é uma volta no tempo. Tempo em que o som vinha da vitrola - preservada, na sala -, os textos eram datilografados - sua Remington Rand, sobre a escrivaninha na mansarda, não tem pingo na letra i - e São Paulo contava com tão menos luzes que era possível brincar de ser astrônomo e passar horas observando estrelas - o telescópio de Almeida ainda está lá, na casa em que morou por 23 anos, de 1946 até a sua morte. Hoje, Casa Guilherme de Almeida.

Depois de ficar fechado por quase três anos, o imóvel, que pertence ao governo paulista desde a década de 70, passa por uma série de adequações para ser reaberto, no primeiro semestre de 2010, como museu e Centro de Estudos de Tradução Literária. "Aqui discutiremos teoria da tradução, tanto de prosa quanto de poesia", adianta o poeta Marcelo Tápia, diretor da instituição. "Também servirá para estimular o interesse pela obra de Guilherme de Almeida." Tanto que já está na pauta a ideia de reeditar toda a obra de Almeida. E, no dia da reinauguração da Casa, deverá ser lançado o último livro do poeta, Margem, concluído dois meses antes de sua morte e ainda inédito. "(A obra) é a transição da vida para a morte", impressiona-se Tápia. "Guilherme de Almeida fez uma espécie de testamento." O último poema, cujo título é um ponto final, diz: "Sem/ mim/ em/ mim? Sim:/ FIM."

O espaço será administrado pela Poiesis, mesma organização que está à frente da Casa das Rosas e do Museu da Língua Portuguesa. Graças a isso, a programação da Casa Guilherme de Almeida foi antecipada para este ano - funciona na Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Cursos e palestras já aconteceram no primeiro semestre e, a partir de hoje, começa uma nova leva.

NA COLINA
Quando se mudou para o sobrado, no número 187 da Rua Macapá, em Perdizes, Guilherme de Almeida tratou logo de apelidá-lo carinhosamente de "casa da colina". Por ali, saraus eram constantes. Entre os frequentadores, estavam o escritor Oswald de Andrade (1890-1954), o escultor Victor Brecheret (1894-1955) e as pintoras Tarsila do Amaral (1886-1973) e Anita Malfatti (1889-1964). Quadros e livros - há um acervo de cerca de 6 mil títulos, entre eles muitas primeiras edições de autores modernistas, autografadas - espalhados pela casa evocam lembranças dessa efervescência cultural.

O mobiliário também é impressionante, complementado por enfeites e louças de porcelana. Alguns itens são curiosos, como, no quarto principal, uma pequena cama para o cachorro do poeta. Almeida era fã de cães da raça pequinês - o último, chamado Ling Ling, morreu um ano depois de seu dono e ganhou um túmulo no quintal da casa. Objetos que aludem à Revolução de 32, cuja causa foi defendida ardentemente por Almeida, também permanecem ali. Há até a arma que Almeida usou, quando se alistou na "guerra paulista".

Engana-se quem pensa que, fechada, a Casa esteja parada. Minuciosas, dez pessoas cuidam da catalogação do acervo - objetos, mobília, livros e obras de arte. Enquanto isso, o projeto de readequação do espaço recebe os últimos retoques antes de ser posto em prática. "O espaço terá uma dupla vida, já que será museu e centro de estudos", explica o arquiteto e artista plástico Carlos Fernando Coelho Nogueira, coordenador de Programação Visual da Poiesis.

Nos fundos da casa, haverá uma pequena arquibancada e um deck, utilizados para palestras e outros eventos. No interior, estão previstos, entre outros, um projeto de iluminação e uma reorganização dos objetos, de modo que possam ser melhor vistos pelos visitantes. De acordo com a Secretaria de Estado da Cultura, os custos das obras ainda não foram calculados.


Sábado, 1 de Agosto de 2009